Criando meninos

O momento mais feliz da minha vida foi quando soube que teria uma menina. É algo horrível de se dizer, eu sei. Mas infelizmente é verdade, e se querem saber o pior, a sensação foi de alívio. Sim, eu tinha medo de estar esperando um menino. Não acho que será nem um pouco mais fácil criar uma menina, mas particularmente eu me sinto mais preparada para tal tarefa. Alguns pontos na criação dos meninos me doem na alma e é sobre eles que eu vou falar hoje.

Esse vídeo foi indicado pela minha amiga Gizelli Sousa e além de expressar bem o que eu quero dizer, é emocionante, recomendo muito. Para assistir é só selecionar “Português Brasil” logo abaixo do vídeo, onde está escrito “Subtitles Available in:”.

Dois homens na minha família tem medo de escuro: o meu sobrinho de cinco anos e o meu pai. A diferença entre os dois é que meu pai já inventou as mais diversas desculpas, costumava dizer que era por causa dos filhos, depois veio uma tal de necessidade de localização (?) e assim por diante.  Meu sobrinho, em compensação, até pouco tempo atrás tinha a coragem de admitir esse medo. Isso está sendo tirado dele. Frases como “homem que é homem não tem medo” e outras no estilo estão sendo continuamente repetidas aos ouvidos do meu garoto e ele está absorvendo-as, obviamente.

Esses dias ele virou para mim e disse: Eu não tenho medo de nada. Eu, como tia bruxa fugitiva desvirtuando o garoto dos caminhos da lei, puxei ele em um canto e falei baixinho: Todo mundo tem medo, até o seu avô tem medo. Ele ficou muito assustado: O vovô tem medo? Fiz que sim com a cabeça e emendei uma conversa tentando explicar que ser corajoso é admitir seus medos e enfrentá-los. Não bastando ainda tive a pachorra de dizer que se ele tivesse vergonha de falar para as outras pessoas sobre os seus medos podia sempre contar para mim e eu ia ajudar ele a enfrentá-los. Ele me abraçou e disse: Tia Paula, eu quero ir no banheiro, você fica ali na porta do lado de fora? Eu fui.

As pessoas tem uma enorme necessidade de cobrar posturas masculinas (o que Tony Porter se refere no vídeo como a caixa do macho) de meninos. Meninos são reprimidos diversas vezes e por várias pessoas diferentes por terem atitudes como dançar, sentir medo ou chorar. Não é coisa de homem, certo?  O que não vêem é que meninos não são homens. São crianças. E crianças não precisam e nem devem agir como adultos. Meninos devem ter direito a passar por todas as fases sem se preocupar com a postura que tanto assusta os homens, eles devem ter o direito de ser eles mesmos.

O mito que ronda a nossa sociedade de que homens são seres frios e sem sentimentos os aprisiona. E o pior, costuma ser passado de geração em geração. Me desculpem por dizer, mas é um ato quase sádico de homens que foram criados com essas exigências quererem fazer as mesmas aos novos futuros homens, porque não importa o quanto eles se iludam, no fundo sabem que ter suas emoções amarradas dessa forma não os ajudou a crescer, apenas os deixou com rancor de quem fez isso com eles e um medo ainda maior de ser eles mesmos.

Meu sobrinho já consegue dormir no escuro se acompanhado e a quantidade de luz que ele precisa quando sozinho é bem menor que antes. Já o meu pai, provavelmente ouviu demais que “homem que é homem não tem medo”, por isso nunca admitiu sequer para si mesmo esse medo, logo nunca o enfrentou e então hoje, não com 5, mas 50 anos, continua precisando dormir com a porta entreaberta e uma luz acesa. Reprimir os medos de um menino na ansiedade de que ele se torne um homem é formar um adulto inseguro para o resto da vida.

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4 pensamentos sobre “Criando meninos

  1. Então, Paula, a sociedade cobra muito dos homens, sim. Mas mulheres também sofrem pra caramba.
    Ainda não sabemos se o nosso é menino ou menina e para a gente tanto faz. Só quero uma coisa: que seja forte, muito forte e tentarei ao máximo propiciar isso durante a educação, porque só com muito preparo psicológico para enfrentar as dificuldades do dia a dia.

    • Bruna, vai ser sim. Eu falei sobre a dificuldade de criar meninos, porque terei o resto da vida para falar sobre as de criar meninas. E, como já disse, me sinto mais preparada para tal, talvez por ter sido uma, então compreender melhor, sabe? Você viu o vídeo linkado ali? Dá uma olhada e se possível mostra para o papai também, é excelente.

  2. Paula, eu concordo totalmente contigo. E tb me sentiria mais preparada para criar uma menina, se eu fosse ter filhos hoje. Com certeza a cobrança que se faz para que as crianças se adequem ao seu gênero desde cedo é muito nociva para meninos e meninas. E porque a gente sabe que quando eles crescem, não há muito o que fazer com relação às escolhas que eles fazem, eu fico apreensiva de pensar que meu filho possa se adequar ao status-quo e virar um machistinha de plantão. Não que não fosse doer, por exemplo, ver a minha filha vomitando preconceitos. Mas ver filho meu ocupando voluntariamente o lugar que lhe foi preparado pela sociedade, ou seja, o pedestal do privilégio, ia ser insuportavelmente doloroso.

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