Pela morte da tristeza clandestina

Para quem não sabe, amanhã é a decisão do STF sobre o aborto de fetos anencéfalos (atualmente proibido) e eu não posso deixar de me pronunciar sobre. Como se trata de um assunto político, pensei em escrever um texto para o Ativismo de Sofá, mas como quero falar de uma perspectiva bem pessoal, optei por esse espaço.

Nos últimos dias, vi muita coisa a respeito do tema, tanto do lado contrário a descriminalização do aborto, quanto do “meu” lado. Muita material circula por aí  contando casos de mulheres que se negaram a fazer aborto, mesmo correndo o risco de perder a própria vida – um desses vídeos, com o Chaves, ficou über famosinho – ou mulheres que mesmo sabendo da questão da anencefalia optaram por levar adiante suas gestações.

E eu queria apenas dizer que sim pessoal, vocês estão certos, todas essas histórias são muito bonitas… Contanto que sejam arbitrárias. É necessário fazer um esclarecimento aqui: A lei que descriminaliza o aborto não o obriga.  Nos países em que o aborto não é crime, tentar persuadir uma mulher a fazê-lo é. A decisão precisa partir única e exclusivamente de quem carrega o feto no útero, qualquer intervenção no sentido de forçá-la física ou psicologicamente a abortar é proibida.

Carregar um filho fadado a morte prematura é no maior simplismo possível: Difícil. E você não pode decidir isso. O Estado e a igreja não podem decidir se aguentam tamanha dor, tamanho transtorno psicológico, tamanho trauma. Porque essa dor não é deles. É da mulher que abriga uma criança sem futuro. Cada uma delas, individualmente, sentem de forma diferente a mesma experiência e, portanto, optarão por caminhos diferentes, contanto que tenham direito a esses caminhos.

Portanto, meus queridos, as histórias das mulheres esperançosas e determinadas que desejam insistir até o fim em suas gestações não morrerão. O que a descriminalização quer acabar é com as histórias clandestinas, das que não estão preparadas para prosseguir com uma gravidez nessas condições e buscam modos de aborto ilegais e inseguros, se furam na própria casa, ou se conformam com o destino e sofrem todos os dias durante nove meses aguardando uma criança que não poderão ver crescer (e depois o resto da vida com o trauma da lembrança).

Não há nada de bonito em uma mulher que prossegue em uma situação desumana dessas simplesmente porque a lei não permite que ela vá por outro caminho. Não há beleza em uma mulher procurar uma roupa para enterrar sua cria ou morrer em uma clínica de aborto clandestina.

Podem haver sim, histórias românticas, de fé, de esperança (e convenhamos, também de tristeza) quando as mulheres optarem por essas histórias. Caso o contrário, essa história não é nada bonita. É um governo atuando no controle e impondo sofrimento a alguém que não deseja passar por ele. As histórias bonitas, só são bonitas porque foram decididas. E essas não vão acabar. A esperança prossegue, o que tem que morrer é o sofrimento das que seguem caladas pela lei.

Anúncios

3 pensamentos sobre “Pela morte da tristeza clandestina

  1. Perfeito, esse tema me traz lágrimas aos olhos. Não é possível que as pessoas não enxerguem que obrigar alguém que pelos mais diversos motivos não possa ter uma criança a tê-la. Isso é muito desumano e eu não entendo onde está a defesa “da vida” aí.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s