Sobre amor e comida

Eu sou uma daquelas gurias de prédio criadas a leite com pêra. Sempre tive comida na mesa, nunca tive que aprender a fazer meu próprio arroz e feijão. É claro que vez ou outra acabei fazendo minha própria janta (tudo tem limite, né!), mas essa nunca foi minha rotina obrigatória, algo no qual eu precisasse pensar.

Me arrisco então a dizer que tirando as sobremesas – nas quais mando muito bem, obrigada – e os miojos da vida, meu primeiro contato com “produção de alimento” veio com a amamentação. Mesmo não tendo que cortar nada, esquentar nada, comprar nada, quem produz sou eu. O meu corpo se encarregou de me mostrar a mágica que há alimentar alguém.

Daí que quando chegaram os seis meses de vida da minha filha eu resolvi ir para a cozinha. Tomar vergonha na cara um pouquinho né? Pois bem, fui.

Diariamente agora eu escolho os alimentos do dia, preparo a água, as panelas, corto as cascas, separo as sementes e começo ali uma das coisas mais românticas que já fiz na minha vida: O ritual de cozinhar.

Tem muito amor na cozinha. É estranho falar isso para quem nunca cozinhou, eu mesma não entendia muito bem quanta paixão podia existir entre uma mão e uma panela. Apesar de gostar de preparar um ou outro bolo para quando minha mãe chegasse do trabalho a filosofia da comida nunca tinha me alcançado, toda a minha experiência culinária havia sido muito impulsiva… até agora.

Pensar a comida é pura poesia. Quando eu cozinho para minha filha estou me declarando para ela. Não colocar sal, porque até um ano de idade não precisa, cuidar para ser tudo fresquinho, olhar a comida e pensar no corpinho dela funcionando como um reloginho.

Cada um dos legumes (btw adoro essa palavra! Não é uma delícia de falar? Le-gu-mes) que eu separo, descasco, cozinho para ela vem acompanhado de uma série de reflexões sobre quem ela é, sobre nós, sobre a minha vida, a nossa vida.

  • Beterraba porque é o que ela gosta mais, mas deixa tudo rosa, né? Depois vou ter que dar um banho. Tá tão legal o banho agora, ela bate as mãozinhas na água… tá tão crescida. Quem sabe depois do banho ela não tira uma soneca gostosa e eu aproveito para ler mais um pouco daquele livro.
  • Cenoura porque dissolve fácil e ela ainda só tem dois dentinhos na boca. Quando eu era criança comia cenoura que nem coelho… aliás, quando será que eu vou começar a fingir de coelhinho da páscoa?
  • Só as folhinhas do brócolis que é o preferido de todo mundo da casa. O Kenzo sempre gostou da “arvorezinha”. Verde no prato fica bonito né?

Tem muito amor em ver a nossa cria se nutrindo para crescer e pensar que a gente fez parte desse processo.  É como se a gente cuidasse ali de cada órgão do outro corpo, é pegar no colo e embalar pelo estômago.

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Eu, que não te amava o bastante.

5 meses de barriga

A gravidez foi um período muito complexo e perturbado para mim. Foi por isso, inclusive, que fiquei um bom tempo sem escrever aqui. Era tudo muito confuso e assustador na minha cabeça e só hoje, depois de passada a tempestade eu consigo olhar para trás e enxergar com naturalidade o medo e os tabus que me assolaram.

Eu acredito que uma das frases mais difíceis de lidar (e que não deixava a minha cabeça um instante) era: Eu acho que não amo minha filha tanto quanto deveria.

Todo mundo me olhava com aquele brilho no olhar, aquela cobrança, aquele frisson como se quisessem me ver o tempo todo sorrindo e acariciando a barriga.  Bom, eu não estava. Eu havia decidido levar minha gravidez adiante, estava me sentindo bem com essa decisão, gostava de estudar sobre, de fazer planos para o bebê, mas… não amava como deveria. Não estava ansiosa, não pensava que o dia do nascimento dela seria o mais feliz da minha vida e não passava horas sonhando em como a vida seria completa com ela ao meu lado. Não tinha o brilho nos olhos que esperavam de mim.

A culpa me corroía. Eu pensava que então, já que não amava, devia ter era desistido da gravidez lá no começo. Me imaginava passando anos fingindo amá-la, fingindo me preocupar, quando na verdade não me sentia bem com isso. Era muito duro ver todos em volta parecendo tão melhores do que eu frente a minha própria vida.

Um dia fui conversar com a minha mãe (sempre essa linda) sobre isso e ela me contou que já sentiu o mesmo. Na gravidez dela teve um diálogo mental consigo mesma pensando “está tudo tão difícil, eu não queria estar grávida”… logo em seguida pensou “não, eu não posso pensar esse tipo de coisa porque se não o bebê sente” e finalizou com “mas que bosta, eu não posso nem PENSAR o que eu quiser por causa desse bebê!”. E é mais ou menos assim mesmo, a gente se sente culpada até pelo que pensa, pelo que sente, pelo que nem ao nosso alcance está.

Esse tal “amar tanto quanto deveria” é um ideal impossível de ser alcançado. A figura da Virgem Maria continua tão presente no imaginário popular que continuamos a nos sentir culpadas, continuamos sendo julgadas com base em sentimentos imaginários presentes mais nos outros do que em nós mesmas. Nunca seremos mães o suficiente para essa utopia.

Depois que a Rita nasceu essa cobrança continuou a estar presente na minha vida. “Mas você não se sente culpada saindo a noite enquanto sua filha está em casa?” Não. “Ai, mas você confia em outras pessoas para cuidar dela?” Sim. “Nossa, mas você deixa os outros pegarem ela? Não é muito difícil ver sua filha em outro colo?” Não.

Hoje eu sei exatamente a relação que tenho com a minha filha, eu sei que a conheço como nenhuma dessas pessoas com cobranças e brilho nos olhos conhece.

Porque é uma gracinha a ansiedade e o carinho alheios. Mas nenhuma dessas pessoas sabe qual é a cor preferida dela, a tipagem sanguínea, quantas vezes já ficou doente, a comida preferida, a música que faz dormir, as vacinas que ainda faltam, os lugares que ela gosta de cócegas e os que não gosta.

Todas essas pessoas que me olhavam fascinadas durante a gravidez tinham sim muito carinho pela minha filha. Mas nenhuma delas passava noites fazendo planos, nenhuma delas lia para a minha barriga, nenhuma delas sentia ela chutar e sorria sozinha quando o bebê soluçava no útero. Nenhuma delas passou a olhar mais antes de atravessar a rua,  parou de fumar ou simplesmente pegou na mão um exame Beta HCG quantitativo e tomou ali uma decisão de vida.

Por muito tempo eu tentei me enquadrar no ideal alheio, sem reconhecer meus próprios sentimentos, confusos, porém sinceros. Eu queria ter percebido antes que achar que não ama o suficiente já é o próprio amor.

Breast is Best – Parte III

Quem me deu o leite é quem vai tirar.

Hoje é o primeiro dia da semana mundial da amamentação, portanto, vou me obrigar a escrever a terceira – e última – parte da sequencia sobre amamentação que tanto procrastinei.

Minha cria já está com sete meses (olha só!) e aí é claro que já começaram a me perguntar “mas ela ainda mama no peito?” “quando você vai parar de amamentar?” e imaginem o choque quando eu respondo: Quando ela quiser parar de mamar.

Acho muito estranho esse conceito de “parar de amamentar”, como assim? Um belo dia você vai simplesmente negar o peito para a sua criança? Sem motivo algum? Claro, é muito diferente quando não se tem leite, quando vai passar um tempo fora, quando não pode em tal horário. Tudo isso é muito normal e acho até que, dependendo da idade, a criança compreende. Não se pode ter tudo. Agora, você está ali, com o peito cheio, o filho pedindo e você simplesmente resolve não dar? Como assim? Por que?

Porque já está muito grande, porque já passou da hora, porque criança grande mamando é feio, porque nessa idade o leite é só uma aguinha com açúcar (oi q?), são muitos os motivos que nos dão para negarmos o peito a nossa cria, soa até algo de extrema necessidade. Mas não é. Muito pelo contrário. Até um ano de idade o leite é o que mais sustenta a criança, o resto dos alimentos é complementar (área na qual minha Rita está indo muito bem, por sinal, come feijão, beterraba, mandioquinha, banana, maçã… mas isso é assunto para outro texto).

Particularmente, entendo que o leite do meu peito não é meu. Eu não o tinha. Minha filha, ao nascer, foi quem trouxe ele. Ela emprestou para o meu corpo o alimento que é, por direito, dela. Então que razão eu tenho de em dado momento simplesmente resolver que vou pegar para mim? Que não vou mais devolver? Quem trouxe o mamá foi ela e só ela pode mandá-lo embora.

E é claro que a nossa vida não se resume a dar peito. A gente tem que sair, tem que viajar, trabalhar, enfim, muitos motivos nos levam a não poder estar ali disponível para quando eles querem. Mas aí com um pouquinho de conversa e muito carinho nós e nossa cria conseguimos passar por esses momentos sem grandes traumas. Agora, enquanto estivermos pertinho, mãozinha e mamá, eu deixarei os dois se encontrarem.

As histórias que ouço de mães que foram pelo caminho do desmame natural sempre me emocionam. Desde as que, com onze meses, de repente resolveram que queriam ficar só abraçadas com o peito, mas não mamar. Até as que, com quase três anos, falaram “Tá difícil de sair né mamãe? Acho que não quero mais não, pode guardar”.

Quando eu tiver minha própria história, de quando minha filha resolveu mandar seu leite embora, venho contar para vocês :)

Primeira vez que Ritinha pegou o peito.