Eu, que não te amava o bastante.

5 meses de barriga

A gravidez foi um período muito complexo e perturbado para mim. Foi por isso, inclusive, que fiquei um bom tempo sem escrever aqui. Era tudo muito confuso e assustador na minha cabeça e só hoje, depois de passada a tempestade eu consigo olhar para trás e enxergar com naturalidade o medo e os tabus que me assolaram.

Eu acredito que uma das frases mais difíceis de lidar (e que não deixava a minha cabeça um instante) era: Eu acho que não amo minha filha tanto quanto deveria.

Todo mundo me olhava com aquele brilho no olhar, aquela cobrança, aquele frisson como se quisessem me ver o tempo todo sorrindo e acariciando a barriga.  Bom, eu não estava. Eu havia decidido levar minha gravidez adiante, estava me sentindo bem com essa decisão, gostava de estudar sobre, de fazer planos para o bebê, mas… não amava como deveria. Não estava ansiosa, não pensava que o dia do nascimento dela seria o mais feliz da minha vida e não passava horas sonhando em como a vida seria completa com ela ao meu lado. Não tinha o brilho nos olhos que esperavam de mim.

A culpa me corroía. Eu pensava que então, já que não amava, devia ter era desistido da gravidez lá no começo. Me imaginava passando anos fingindo amá-la, fingindo me preocupar, quando na verdade não me sentia bem com isso. Era muito duro ver todos em volta parecendo tão melhores do que eu frente a minha própria vida.

Um dia fui conversar com a minha mãe (sempre essa linda) sobre isso e ela me contou que já sentiu o mesmo. Na gravidez dela teve um diálogo mental consigo mesma pensando “está tudo tão difícil, eu não queria estar grávida”… logo em seguida pensou “não, eu não posso pensar esse tipo de coisa porque se não o bebê sente” e finalizou com “mas que bosta, eu não posso nem PENSAR o que eu quiser por causa desse bebê!”. E é mais ou menos assim mesmo, a gente se sente culpada até pelo que pensa, pelo que sente, pelo que nem ao nosso alcance está.

Esse tal “amar tanto quanto deveria” é um ideal impossível de ser alcançado. A figura da Virgem Maria continua tão presente no imaginário popular que continuamos a nos sentir culpadas, continuamos sendo julgadas com base em sentimentos imaginários presentes mais nos outros do que em nós mesmas. Nunca seremos mães o suficiente para essa utopia.

Depois que a Rita nasceu essa cobrança continuou a estar presente na minha vida. “Mas você não se sente culpada saindo a noite enquanto sua filha está em casa?” Não. “Ai, mas você confia em outras pessoas para cuidar dela?” Sim. “Nossa, mas você deixa os outros pegarem ela? Não é muito difícil ver sua filha em outro colo?” Não.

Hoje eu sei exatamente a relação que tenho com a minha filha, eu sei que a conheço como nenhuma dessas pessoas com cobranças e brilho nos olhos conhece.

Porque é uma gracinha a ansiedade e o carinho alheios. Mas nenhuma dessas pessoas sabe qual é a cor preferida dela, a tipagem sanguínea, quantas vezes já ficou doente, a comida preferida, a música que faz dormir, as vacinas que ainda faltam, os lugares que ela gosta de cócegas e os que não gosta.

Todas essas pessoas que me olhavam fascinadas durante a gravidez tinham sim muito carinho pela minha filha. Mas nenhuma delas passava noites fazendo planos, nenhuma delas lia para a minha barriga, nenhuma delas sentia ela chutar e sorria sozinha quando o bebê soluçava no útero. Nenhuma delas passou a olhar mais antes de atravessar a rua,  parou de fumar ou simplesmente pegou na mão um exame Beta HCG quantitativo e tomou ali uma decisão de vida.

Por muito tempo eu tentei me enquadrar no ideal alheio, sem reconhecer meus próprios sentimentos, confusos, porém sinceros. Eu queria ter percebido antes que achar que não ama o suficiente já é o próprio amor.

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7 pensamentos sobre “Eu, que não te amava o bastante.

  1. Nossa, parece que estou lendo o que eu senti na gravidez. Sabe o que pensei quando vi meu filho após o parto? “Nossa, ele é meu, depende totalmente de mim e eu nem o conheço!”. Não amei meu filho desde que estava na barriga, não amei quando o vi na maternidade. O tal instinto materno, pra mim, foi a responsabilidade de ter que cuidar de alguém tão indefeso, tão dependente. Mas o amor veio com o tempo, com o conhecimento, com a construção da relação. E o conceito de amor pra mim está relacionado a isso, a convivência, a construção, não a algo instantâneo, hormonal. Depois de 10 anos, tenho plena consciência da relação que construímos, e não me deixo abalar pela opinião dos outros, do que julgam ser adequado.
    E sigo assim, criando-o da melhor forma possível, sendo a mãe possível, sem me sentir culpada. Porque não pretendo ser perfeita, não pretendo ganhar o prêmio de mãe estremada do ano. Quero apenas ser uma mulher feliz, pra poder ser uma mãe feliz. E isso inclui ter tempo só pra mim, ter uma vida própria que não seja apenas relacionada a maternidade, ter consciência de que em alguns momentos irei decepcioná-lo, mas que tudo isso faz parte da vida e que no final, não terei nada para “cobrar”, nenhuma contrapartida a exigir, porque dei o que eu quis dar, fui quem eu posso ser, e não abri mão de mim mesma por ele. Não quero depositar nos ombros do meu filho a carga de “nossa, a mamãe deixou de fazer sbrubbles só por mim, tenho que fazer qualquer coisa que ela queira”. Sou livre pra ser quem eu sou, e ele pra ser como é.

  2. Nossa, como isso é reconfortante!
    Ainda estou aprendendo aos poucos a lidar com toda essa culpa. Me sinto frustrada por não ter a autonomia que tinha sobre o meu corpo, por saber que todas as minhas escolhas agora irão influenciar na vida de quem não escolheu comigo, uma vida que depende de mim pra existir… Ainda está tudo muito pesado!
    Ando um pouco menos carregada depois que aceitei que amor não é nada disso que leio por aí. Também já me sinto um pouco menos culpada por ter escolhido seguir em frente com a minha gravidez mesmo não me sentindo nada preparada, mesmo estando triste, mesmo estando até desesperada. Mas quanto a não poder pensar no que quiser sem afetar o bebê, isso ainda me deixa louca! =T
    Acho que a sensibilidade à flor da pele deixa tudo maior do que é, mas carrego a certeza de que só eu poderia saber a grandeza das minhas decisões. Minhas confusões são minhas, e resolvê-las significa entender a mim mesma, não o que os outros esperam que eu saiba e entenda…

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