Luto pós-cesárea

Conversando com algumas amigas (grávidas; mães) senti a necessidade de escrever sobre esse assunto. Baseio-me única e exclusivamente na minha experiência, então não vou me arriscar a falar sobre pós-parto, apenas pós-cesárea, que foi o que vivi (cujo relato você encontra aqui). Pode ser que quem passa por um parto sinta o mesmo, pode ser que não, inclusive, se vocês que pariram puderem comentar sobre o assunto agradeço.

Também já li por aí que o chamado baby-blues (o que talvez seja justamente esse luto do qual pretendo falar) atinge cerca de 80% das mulheres. Talvez sejam justamente as 80% que fazem cesárea no Brasil, talvez não, enfim.

O que posso dizer sobre o assunto é que o nascimento da minha filha não marcou o nascimento da mãe em mim. É claro que mesmo antes de ela nascer eu já sentia algo especial, tanto é que comecei esse blog na primeira vez que ela chutou. Eu conversava com a barriga, fazia carinho, lia, cantava para ela, ficava enlouquecida quando não mexia e brigava quando mexia demais. Eu já me pensava uma mãe, mas ainda não entendia aquela coisa sem nome que diziam que era ser mãe.

E aí eu passei por uma cesárea. E posso dizer com certeza que os primeiros dias de vida da Rita foram simplesmente os dias mais confusos, transtornados, estranhos da minha vida. Até hoje não sei nomear os milhares de sentimentos estranhos – e por vezes opostos – que eu tive naquele momento.

A priori eu simplesmente não via um ser. Não vi minha filha. Parecia que tinha algo de muito errado no mundo, eu não sabia o que era, mas as coisas estavam simplesmente erradas. Não tinha aquele êxtase de todos, não conseguia olhá-la apaixonada, achá-la linda e ficar lá, “babando”como dizem. Muito menos falar com ela, conversar. O que eu sentia, na verdade era a sensação de ter algo arrancado de mim. Parecia que eu estava amputada e queria de volta o meu pedaço tomado. Da primeira vez que levantei da cama do hospital, olhei para baixo e me vi sem barriga, desmaiei.

Também me desesperava a ideia de ir para casa. Eu não sabia trocar a fralda de um recém-nascido, as enfermeiras me ensinaram. Eu não sabia o que ia fazer quando estivesse sozinha, como ia conseguir… dar banho, trocar a roupa, fazer dormir, eu não sabia fazer nada disso. Eu me sentia bem perdida. Se eu não sabia sequer como seria a minha vida de modo prático e material, como reconhecer algum sentimento? Não sei até agora descrever o que eu pensava, eu parecia também não saber o que fazer com o que sentia. Se não sei trocar fralda como saberei ser mãe? Como me sentir mãe? Eu não conseguia sorrir direito, eu não conseguia me comunicar. Era como se eu estivesse fora do meu corpo olhando tudo o que estava acontecendo e tentando entender.

Depois de três dias no hospital fui para casa e aí começou uma outra etapa: Os sonhos. Sabem os clássicos sonhos em que as pessoas estão caindo? Eu nunca havia tido. Mas quando fui para casa tive, durante três noites seguidas eu caí… e morri. Foram sonhos diferentes, alguns tinham referência a um deus, outros a um inferno, mas o resumo era sempre o mesmo, eu caia e morria. O engraçado é que durante a minha vida não lembro de ter tido muitos sonhos com finais, parece que eu sempre acordava no meio deles, mas esses tiveram, terminavam na morte. Não morrendo… morta.

Houve um dia que eu resolvi, com ela nos meus braços cantar Aquarela para ela. E chorei. Caí em um choro desesperado que não sabia explicar. E chorei durante muito tempo. Foi um choro de quem se sentia lotada, um choro de quem está tomada por uma coisa tão grande, tão grande que precisa transbordar. O choro, com direito a soluços e dor de cabeça foi a única expressão que eu encontrei para traduzir aquele momento da minha vida. Não dava para falar, para escrever, para manifestar de nenhuma outra forma… eu precisei chorar. E por mais algum tempo foi assim. Eu tentava conversar com a Rita e chorava, olhava para ela e chorava, lembrava que ela existia e chorava.

E foi assim que por volta de sete dias após o nascimento da minha filha, eu me tornei mãe. É muito difícil que as pessoas compreendam esse nosso período melancólico e confuso, mas bem, talvez ele seja necessário. Dizem que junto com cada criança nasce uma mãe. Mas psicologicamente falando (e me corrijam psicólogos se eu estiver errada), não há como nascer alguém dentro de nós sem que outra parte morra.

Eu precisei enterrar uma parte minha para dar lugar a outra. Talvez tenha sido justamente a parte insegura, silenciosa, confusa, já que passando essa fase foi justamente quando comecei a falar, brincar, amar e a reconhecer nela outro ser: minha filha.

O fantástico da criança e eu

Eu sou uma pessoa muito chata. Acho que talvez eu sempre tenha tido medo de crianças por causa disso. Nunca soube ser legal como elas. Nunca soube como chegar, conversar, interagir com elas sobre mundos imaginários, sobre outras dimensões, sobre esses lugares, esses bichos, esses seres que as crianças conhecem tão bem e nós não.

Nunca me animei a ler Harry Potter, nem as Crônicas de Nárnia. Também não sou nada chegada em romances em geral e mesmo as histórias fantásticas que gosto, gosto pela parte lúcida delas (O Labirinto do Fauno, por exemplo).

Mas aí veio a Rita. E quem já cuidou de bebês integralmente sabe que uma coisa mágica acontece com a gente: De repente, regredimos. É como se tudo o que está ligado a nossa infância estivesse armazenado no nosso inconsciente e de repente isso vem a tona. Não que a gente passe a se lembrar, mas isso se manifesta de alguma forma. A gente consegue se comunicar mais de maneira não-verbal, olhar nos olhos da nossa criança e compreende-la, colocá-la para dormir muito provavelmente da forma que nós gostávamos de dormir quando criança.

E nesse meu retorno eu tenho descoberto uma nova forma de se ver o dia-a-dia. Primeiro me interessei surpreendentemente por uma série chamada Once Upon a Time e amei. Eu que só costumava falar comigo mesma, agora ando cantando para alguém. Canto as músicas que conheço sobre borboletas, sobre gatinhas manhosas e sobre heróis cujos cavalos agora só falavam inglês.

Ontem no meio das nossas brincadeirinhas clássicas bateu um ventinho. E movida por esse ventinho eu joguei sobre nós duas uma coberta que, por coincidência, é cheia de bolinhas coloridas. Foi aí que a mágica entrou de vez na minha vida. Eu vi então que quando quisermos podemos fazer isso: Viver sob um céu de bolinhas coloridas, onde a gente pode cantar e imitar pássaros com as nossas mãos.

Estou pouco a pouco aprendendo a olhar esse outro lado do mundo: O que simplesmente não existe. O que a gente forma juntas, montando, imaginando, viajando no conhecido até que ele não faça mais sentido algum, ficando assim do nosso jeito.

Para ajudar meu sobrinho de seis anos ainda tem me dado uma mãozinha no assunto: “Tia Paula, o que acontece se um tiranossauro rex brigar com um urso polar?” olha, eu não sei, mas pelo jeito tenho avançado (ou regredido?) a um nível de não se importar em passar horas imaginando para descobrir.

Confiança

Rita já está grandinha. Com oito meses ela engatinha e passa um tempão brincando no tapete. Persegue os brinquedos e as outras coisas que não são tão brinquedos assim, como controles, telefones, livros, etc.

Acho que são sinais grandes de independência. A gente fica até um pouco assustada quando, pela primeira vez, vê que colocou a cria para brincar em um lugar e ela já está lá do outro. Provavelmente querendo brincar com algo que não pode.

Ela também já consegue se levantar sozinha. Se apoia na mesinha, na caixa de brinquedos, no sofá e fica ali de pezinha. Olhando a vida sob outra perspectiva. Deve ser interessante poder mudar de ângulo quando isso não é corriqueiro na vida da gente. Dá um trabalho danado, exige um esforço tremendo das pernas, dos braços e da força de vontade para ver a vida diferente no comecinho assim.

Até gravei um vídeo disso. Mas ficou virado. Sou excelente com tecnologia, não?

Mas, assim como eu, antes de ir para o meu primeiro show, aos onze anos de idade, abracei a minha mãe como se fosse a última vez que nos víamos, ela ainda se abraça a essa ideia de proteção chamada: Eu.

Se eu trouxer no colo, chegar e soltá-la no tapete é choro na certa. Eu preciso sentar junto. Ela passa um tempo sentada na minha perna, com a cabeça encostada no meu ombro, só olhando. Depois vê alguma coisa que a atrai. E aí já senta no chão, mas não vai lá brincar. Eu tenho que trazer o brinquedo para perto dela e mostrar que é bom. Apresentá-los como se fosse a primeira vez.

Passa um tempo ali, se revezando entre olhar o que tem em volta, brincar com o que eu entreguei e me abraçar. Até que vai. Vai engatinhar, mexer nas coisas, descobrir sozinha. E aí eu posso sair.

Quando consegue ficar de pé se apoiando em algum objeto passa um bom tempo ali. Mas não sabe descer. Então quando cansa começa a ficar nervosa, dá um chorinho de quem precisa de ajuda, uns gritinhos de quem não vê saída. Até que eu chego por detrás dela e dou minhas duas mãos para ela segurar. Ela nem precisa me ver, sabe que são minhas mãos que estão ali e que vão ajudá-la a caminhar para onde ela quiser. Pronto, está aberto o sorriso e as balbucias de alegria.

Independência é uma delícia. Mas quando a gente sabe que tem uma mão para segurar e um colo para sentar fica muito mais fácil engatinhar em direção a ela.