Confiança

Rita já está grandinha. Com oito meses ela engatinha e passa um tempão brincando no tapete. Persegue os brinquedos e as outras coisas que não são tão brinquedos assim, como controles, telefones, livros, etc.

Acho que são sinais grandes de independência. A gente fica até um pouco assustada quando, pela primeira vez, vê que colocou a cria para brincar em um lugar e ela já está lá do outro. Provavelmente querendo brincar com algo que não pode.

Ela também já consegue se levantar sozinha. Se apoia na mesinha, na caixa de brinquedos, no sofá e fica ali de pezinha. Olhando a vida sob outra perspectiva. Deve ser interessante poder mudar de ângulo quando isso não é corriqueiro na vida da gente. Dá um trabalho danado, exige um esforço tremendo das pernas, dos braços e da força de vontade para ver a vida diferente no comecinho assim.

Até gravei um vídeo disso. Mas ficou virado. Sou excelente com tecnologia, não?

Mas, assim como eu, antes de ir para o meu primeiro show, aos onze anos de idade, abracei a minha mãe como se fosse a última vez que nos víamos, ela ainda se abraça a essa ideia de proteção chamada: Eu.

Se eu trouxer no colo, chegar e soltá-la no tapete é choro na certa. Eu preciso sentar junto. Ela passa um tempo sentada na minha perna, com a cabeça encostada no meu ombro, só olhando. Depois vê alguma coisa que a atrai. E aí já senta no chão, mas não vai lá brincar. Eu tenho que trazer o brinquedo para perto dela e mostrar que é bom. Apresentá-los como se fosse a primeira vez.

Passa um tempo ali, se revezando entre olhar o que tem em volta, brincar com o que eu entreguei e me abraçar. Até que vai. Vai engatinhar, mexer nas coisas, descobrir sozinha. E aí eu posso sair.

Quando consegue ficar de pé se apoiando em algum objeto passa um bom tempo ali. Mas não sabe descer. Então quando cansa começa a ficar nervosa, dá um chorinho de quem precisa de ajuda, uns gritinhos de quem não vê saída. Até que eu chego por detrás dela e dou minhas duas mãos para ela segurar. Ela nem precisa me ver, sabe que são minhas mãos que estão ali e que vão ajudá-la a caminhar para onde ela quiser. Pronto, está aberto o sorriso e as balbucias de alegria.

Independência é uma delícia. Mas quando a gente sabe que tem uma mão para segurar e um colo para sentar fica muito mais fácil engatinhar em direção a ela.

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