A receita de bolo ou sobre mães melhores e piores

Dizem que não há receita para criar filho. De fato, não há. Eu discordo dos que acreditam que ser pai ou mãe deveria vir com cursinho prévio etc. Também aprendi pouco nos tais grandes livros do bebê que prometem nos dizer passo a passo como lhe dar.

Dizem também que, apesar de cada mãe ser diferente, mãe é tudo igual. Mãe sempre procura fazer o melhor para os seus filhos. Mãe pode errar, mas é sempre tentando acertar. Mãe só muda de endereço. É engraçado notar como existe até um certo sexismo nisso, afinal, voltemeia a gente escuta que Fulano é um “bom pai” ou o contrário. Mas as mães foram retiradas do seu patamar de humanas e não podem ser boas ou ruins, são todas iguais.

Pois, sinto muito, mas eu acho sim que existam mães melhores e mães piores. Ser mãe é simultaneamente estabelecer um relacionamento e exercer uma função (aliás, arrisco dizer que em todo relacionamento exercemos uma função, perdoem-me a falta de romantismo). E a forma como exercemos essa função está sim em cheque, pode sim ser avaliada e reavalidada (de preferência por nós mesmas).

Espera, para. Não estou dizendo que exista uma forma exata para se criar os filhos no sentido prático da coisa. Não existe uma forma exata de colocar para dormir, de dar banho, de agir quando a criança morde, quando faz birra, não existe uma música certa para cantar. Como eu já disse, ser mãe é estabelecer um relacionamento com outro ser e é claro que pessoas diferentes vão estabelecer relações diferentes.

Mas é justamente nisso que está a grande palavra-chave do que estou querendo dizer: Pessoas. Crianças são pessoas, sim, lidem com isso. E como tais merecem ser respeitadas, compreendidas como seres humanos, sabe? Existem mães melhores ou piores porque a relação mãe-filhx é (pasmem!) uma relação a dois. E o outro participante que não a mãe é tão importante quanto ela.

Parênteses: Nesse final de semana conheci uma mulher que me disse que a criança, que se tratava de um bebê de oito meses, era terrível, uma peste. Ao ouvir as ações do bebê terror percebi que: eram exatamente as mesmas da minha filha. Sabe, se apoiar em tudo, por na boca o que não deve, puxar o rabo do cachorro etc. Depois disso, vi o menininho estendendo a mão para pegar uma folha (o horror, o horror) e levando um tapa no braço. Saí de perto.

Voltando: O que quero dizer é que as mães não estão acima do bem e do mal. Existem sim, mães melhores e mães piores. Eu que não bato no braço da minha filha quando ela vai pegar alguma coisa do chão, sou melhor que muita mãe e as muitas mães que além de não baterem nos braços de suas crianças não gritam quando ficam nervosas (como eu faço) são melhores do que eu.

Porque pode não haver uma receita de bolo, pode ser que ninguém tenha os ingredientes certos para criar um filho, mas o modo de fazer está bem claro: Quanto mais se encara a criança como um ser humano, valorizando sua personalidade, permitindo suas escolhas, compreendendo-a como um ser único com instintos, desejos e entendimentos únicos, enfim, vendo-a como outra pessoa, não como uma extensão ou um objeto, mais perto se chega de ser uma mãe melhor.

E embora seja óbvio, reitero: Isso não significa que se deva fazer tudo o que a criança quer, tenho certeza que você respeita muitas pessoas como seres humanos e não necessariamente faz tudo o que elas querem.

O que quero dizer é que a máxima: “É meu filho e eu vou fazer do meu jeito” não é válida. Existem evidências, pesquisas, estudos que estão a favor de todas as mães e, principalmente, de todas as crianças. Existem sim algumas “fórmulas”, não como “aqueça a água a exatos 35 graus” mas como: amor, cuidado, atenção e carinho são sempre mais eficientes do que tapas. Nosso filho não é nosso, é dele mesmo e a maneira de ser uma mãe a altura de nossos filhos é nos esforçando não para fazermos apenas do nosso jeito, mas sim do nosso melhor jeito (e que nesse “nosso” estejam inclusas todas as pessoas da relação).