A você que abortou

A vida muda quando a gente engravida. É incrível como de um momento para o outro olhando o resultado de um exame a nossa vida muda. O nosso mundo vira de cabeça para baixo e a gente não sabe mais nada sobre nós. Esquecemos quem nós somos, o que pensamos, o que queremos. Por alguns minutos a gente só sabe que a nossa vida acabou de mudar.

E aí não tem mais volta. Simplesmente não tem mais volta. A gente só precisa parar e pensar no que vamos fazer dali em diante. A gente tem que voltar o mundo para o lugar e pensar prática e materialmente qual será a nossa opção: A primeira é abortar, a segunda é gestar e entregar o bebê para adoção, a terceira é se tornar mãe.

A minha opção foi a terceira. Tão digna, tão admirável… só que não. A partir do momento desse teste positivo não há nada  mais digno ou mais admirável a se fazer. Não há nenhuma opção fácil, simples ou óbvia. Há a menos difícil. E o conceito de dificuldade, convenhamos, é muito relativo.

Para mim foi menos difícil escolher ser mãe do que me propor a fazer um aborto ou a gestar um bebê que iria para outra pessoa. Para outras pode ser exatamente o contrário. E aqui entra a culpa social: A ideia de que optar pelo aborto é fácil, inconsequente, é indigno. Não é.

E dizem que quem aborta se arrepender pelo resto da vida. Mentira. A vida muda quando a gente engravida. Muda, mas não acaba. Independente do caminho que você escolha.

Claro que como todas as decisões que a gente toma na vida, existe o outro lado. O lado da dúvida, da incógnita e um pinguinho de arrependimento que volte-meia bate em todo mundo. Chamam de crise existencial, né?

Vamos sanar essa crise. Suponhamos que você tenha exatamente as mesmas condições que eu. Que você seja de classe média, que sua mãe tivesse te dado apoio e que você tivesse de fato essa vontade de ser mãe. Suponhamos então que você, que abortou, tivesse escolhido outro caminho… o mesmo que eu. Como seria a sua vida hoje?

Provavelmente seria muito boa, obrigada. Você sairia menos a noite e teria que se planejar melhor, mas estaria muito feliz brincando com seu filho. Assim como eu, se tivesse abortado, não estaria brincando com minha filha, mas estaria muito feliz saindo mais a noite e planejando menos.

Você teria mais dificuldade em ir para lugares diferentes, em viajar, em mudar de casa, de cidade, de país. Assim como eu teria facilidade se tivesse escolhido o mesmo caminho que você. Você pensa que em compensação estaria sempre acompanhada, eu penso que teria a independência e a solidão que tanto me fazem falta.

Você não se pegaria voltemeia olhando para as crianças na rua e pensando “como será que seria o meu filho hoje?”, bem como eu – caso tivesse feito a sua opção – não me pegaria de vez em quando nervosa, cansada, olhando a minha criança dentro de casa pensando “o que foi que eu fui fazer?”.

Você ficaria satisfeita ao chegar em casa e ver sua criança. Bem como eu poderia ficar satisfeita ao chegar em casa e descansar. Você sentiria a responsabilidade de escolher uma boa escola e eu sentiria a responsabilidade de saber qual meu próximo passo agora.

Você teria mais dificuldade em algumas coisas. Mais tristeza em outras. Se emocionaria mais com outras. E também teria mais facilidade em algumas coisas, mais alegria em outras, e mais frieza com algumas terceiras ou quartas coisas.

Provavelmente você iria se dar muito bem nessa jornada. Assim como eu me daria muito bem nesse outro caminho. Se tudo desse certo para nós, você seria feliz com a minha escolha e eu seria feliz com a sua. Mas nós não fizemos as escolhas uma da outra. Fizemos nossas próprias. Que bom, né?

Já mencionei que a vida muda quando a gente engravida? Muda porque a escolha de voltar atrás não existe, mas existem outras e não importa qual for a nossa, quando ela nos frustrar – e, convenhamos, não é tão raro a vida nos frustrar – a gente sempre vai parar de vez em quando para pensar como poderia ser diferente.

E eu gosto de pensar que provavelmente seria bom. Porque ter filhos pode de fato ser muito bom. Pode ser tão bom quanto não ter. A minha escolha e a sua foram apenas diferentes e não implicam em nosso grau de felicidade.

Ambas trouxeram consigo seus bônus e de vez em quando um “e se…”. E se fosse o contrário? Bem, seria  o contrário. Mas a parte engraçada é que esse contrário não é tão oposto assim. As nossas vidas tomaram rumos diferentes, mas foram os nossos rumos. As nossas escolhas que basicamente ajudam a formar quem nós somos e eu espero, de coração, que você goste de quem você é hoje, porque não há do que não se gostar.

Não há escolha certa. Não há definição de realização. Não há caminho mais claro, mais fácil, mais garantido.

Existe apenas a nossa vida hoje e o que de bom nós aprendemos com ela. Existe uma mudança, mas não uma perda. Existe apenas eu e você, em vidas tão opostas e sentimentos tão parecidos. Traçando a nossa própria felicidade.

Sites: This Is My Abortion
My Abortion My Life

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Por um amor mais café com pão

Ah, o amor romântico! Esse mito ocidental que padroniza nossas relações. Todas elas. É complicado falar desse assunto porque mexe com o âmago das pessoas. É difícil admitir que fomos condicionados a amar de determinada forma e que isso é questionável. É difícil repensar algo tão profundo quanto nossos próprios sentimentos. Mas bem, vou ter que fazer isso.

Desde o namorinho da infância até o amor materno é condicionado. O que não falta é pressão sobre o “amor de verdade”. As pessoas criam expectativas (e já falei sobre isso aqui) e testes para saber quanto vale o seu amor. Querem um amor extremo, um amor que viva sempre no limite, um amor de provas. Muito mais provas do que amor, convenhamos.

Entre as mães então, é padronizado que amamos nossos filhos desse jeito máximo. É óbvio que amamos nossos filhos mais do que tudo no mundo. Que se tivéssemos que escolher entre qualquer outra coisa (uma carreira, um romance, uma aventura) e nossos filhos optaríamos por eles. O nosso amor é medido o tempo todo. E tem que passar por esse crivo, esses testes imaginários (convenhamos, quantas vezes na vida temos que de fato fazer escolhas fatais assim?) para que seja válido. Só assim comprovamos que na maternidade encontramos o “verdadeiro significado do amor”.

De qual amor? Ora, que padronização mais chata. Como medir algo tão fluido quanto o amor? Como determiná-lo dessa maneira estagnada? Se o amor nada mais é do que uma relação entre pessoas distintas?

Para mim funciona diferente. Eu não quero esse amor materno divino, intocável e inquestionável. Eu não me identifico com essa idealização. Eu não quero amar dos extremos, não quero amar na hora da escolha. Eu não quero que seja maior que tudo, maior que eu, maior que qualquer amor de qualquer pessoa. Eu só quero que seja nosso.

O meu amor é café com pão. Esse amor que eu vejo toda vez que abro os olhos no meio da noite para te ver dormindo. O amor que acorda com você pulando na cama gritando “tatata” e responde “mas já, filha? Me deixa dormir mais um pouquinho”. Meu amor está nas músicas que eu invento para te fazer sorrir, está no meu ouvido treinado que reconhece o seu choro a distância. Meu amor é plausível, é palpável.

Esse amor de quem bate palmas juntinho a cada colherada de comida, um amor que sai encharcado da hora do banho. Amor que se abraça durante a noite, que anda de mãos dadas, que trava uma briga na hora de cortar as unhas.

O meu amor não está nos limites, não está no imaginário, no “o que eu faria se…”. O meu amor está no agora. É um amor de dia e noite, de cotidiano, de construção (e essa sou eu citando músicas do Chico Buarque compulsivamente). É um amor de pequenos sorrisos, de cócegas e carinhos.

Eu quero um amor menos padrão e mais concreto. E para isso a gente precisa colocar todo dia um tijolinho.

Rita e o Rio

Então nós fomos conhecer o Rio de Janeiro. Eu com 22 anos e ela com nem um. Claro que para garantir a memória eu tirei mil fotos e gravei vídeos (o difícil é que agora não sei onde armazenar, qual vai ser a tecnologia da época quando ela for adolescente?), mas bem, a memória emocional acho que fica (fica?).

Inclusive, vale frisar que a menina é viajada. Tá aqui nesse mundão há 10 meses e já conheceu São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Temos também Porto Alegre nos planos. E não pensem que eu era de viajar tanto assim, sempre gostei, mas era mais de sonhar do que de executar. E aí foi a menina chegar que inexplicavelmente me bateu esse sopro de vida, essa vontade de ir para tudo quanto é canto. Mas acho que isso é assunto para outro post.

O fato é que Ritinha pisou na areia e viu o mar pela primeira vez e taí uma coisa que merece ser registrada. Rita chegou na praia e foi direto fazer o que mais gosta: Comer alguma coisa não comestível, cheia de bactérias e preferencialmente bem perigosa. No caso, areia.

O gostinho áspero na boca não deu certo não. A textura também não agradou os pézinhos e os braços viraram quase que instantaneamente pedindo meu colo. Eu dei. Ficou ali então sentada nas minhas pernas, olhando para os lados e tentando entender o que eram aqueles grãozinhos que tinham grudado nas mãos.

Não demorou muito eu resolvi arriscar. Vamos para o mar. Me disseram que geralmente dava medo, que as crianças demoravam, não iam de primeira, grudavam na gente e queriam só olhar de longe, bem de longe mesmo. Mas, bem, estávamos na praia eu tinha que levá-la para tirar suas próprias conclusões. E aí? Aí foi amor a primeira vista.

Aí foi neném sorrindo de uma orelha a outra. Já começou a se balançar no meu colo, doidinha para chegar mais perto daquilo. Era a onda quebrar e ela gritava. Coloquei no chão e fiquei ali segurando as mãozinhas. Pronto. Era gargalhada que não acabava mais. E queria ir, queria andar, correr para dentro do mar.

Quando a onda era mais alta eu a levantava. A reação foi a óbvia para quando se junta duas paixões, saltos e ondas resultaram em risos infinitos. Quanta endorfina deve ter sido liberada naqueles minutos que ficamos por ali.

Virei para ir embora e aí parece que a opinião sobre a tal areia havia mudado. Se jogou na areia molhada. Queria tocar, pegar, sentir e, obviamente, comer. Sentei com ela ali um pouco, para deixar se despedir do mar. E fomos (e voltamos no outro dia).

Não teve susto, não teve medo, não teve nada do que eu deveria esperar. Teve felicidade. Teve uma paixão louca. Algo que parecia ser um sentimento único que aos dez meses de idade deu vontade se jogar no mar, nas ondas, na vida, no Rio de Janeiro.