Um amor que não come o medo da morte

A criança nasceu. É fralda para trocar, peito para dar, banho para tomar, umbigo para cuidar, carinho para compartilhar, susto, surpresa, amor, cuidado, força, luto, um monte de outros afazeres, um monte de outros sentimentos. E o medo. Ah, o medo.

Eu não pretendo aqui falar em nome de todas as mães. Sei que a gente sente diferente e, bem, isso é ótimo. No meio de todas nós, há de ter quem se sinta bem diferente de mim. Mas, olha, a minha experiência bateu muito sobre o que a gente costuma ouvir a respeito das mães por aí viu?

Porque a criança nasceu. E de repente a vida passou a ser tão frágil.

De todos os afazeres maternos (que são muitos e são diários), sem dúvidas, o que mais repeti até hoje foi: Conferir se a barriguinha está mexendo para ter certeza de que ainda está respirando.

Assim que a Rita nasceu lembro de pensar que agora entendia o que levava as pessoas a crerem em um deus. Porque lá estava eu, na minha primeira noite com minha filha em casa, sabendo que, entre outras coisas, existia algo chamado Síndrome da Morte Súbita. De repente bate a ideia de que aquele serzinho que você acabou de gerar pode afogar com o próprio leite, sufocar no próprio manto ou simplesmente parar de respirar e não acordar mais. E se você não tem nada para se apoiar, qualquer coisa que te faça acreditar que, por algum motivo, nenhuma dessas coisas vai acontecer com o seu bebê, você passa a noite em claro, olhando a barriguinha se mexer. Eu passei assim.

Pois bem, o fato é que muita gente já me perguntou sobre esse fator medo que acomete as mães. E não, eu não sei responder porque ele surge. Não tenho nenhuma explicação científica, psicológica, filosófica nem poética que o justifique. Só sei que sinto.

A princípio o medo era imenso e não era só sobre a Rita. Era sobre mim também. Cheguei a pensar que poderia estar desenvolvendo ma Síndrome do Pânico ou coisa do tipo. Era medo de pegar elevador, de atravessar a rua, de repentinamente o prédio desabar (?). E se eu me machucar? E for parar no hospital? Como ela vai mamar? E se eu morrer, senhor e se eu morrer, quem vai cuidar dela?

Eu sentia um medo nível ir para cama, abraçar a filha e chorar quietinha, pensando que tanta coisa horrível pode acontecer, que a gente é tão pequenininha e tudo é tão perigoso. Um medo que paralisa, sabe? Por sorte, essa fase desesperadora inicial passou em poucos meses (acho que não chegou a completar três) e eu aprendi a conviver com o medo.

Você não pode se livrar dos seus medos… mas você pode aprender a conviver com eles – Mais chá?

Tranquilamente sei que tenho medo. E não tenho mais medo de ter medo. Sei que a vida é frágil, mas depois de tantas vezes vendo Rita engatinhando, caindo, rolando, batendo a cabeça, testa, bochecha, sei também que não é tanto assim.

Agora que Rita completou um ano eu estou tendo uma fase de medo novamente. Não se compara ao que senti quando ela nasceu, já não temo tanto pela minha vida, acho que porque sei que estou criando uma filha forte e, principalmente, porque já conheço exatamente em quem confiar a vida dela. Sei que ela tem outras mãos para cuidar dela que não as minhas. Mas com relação a ela, a coisa voltou forte. Dia desses acordei a pobre coitada da criança chacoalhando brutalmente porque não estava vendo a barriguinha mexer e entrei em desespero. Delicadeza materna.

Imagino eu (e aqui tem um belo de um achismo) que o medo vem acompanhar as mudanças muito grandes porque a gente não sabe bem como lidar com elas, né? Papinho reacionário, eu sei, mas se cortar o cabelo gera um frio na espinha desesperador, imagina o nó na garganta que não dá cuidar de outra vida. Minhas duas “crises de medo” se deram nas seguintes situações: Primeiro, nasceu. Depois, completou um ano, começou a andar, falar e fugir do meu colo. Precisa de tudo isso assim tão de repente, Rita? Precisa?

É claro que ao longo da vida eu vou ter que aprender a lidar com isso. Que um dia vou ter que deixar ir em uma viagem de carro com os amigos (embrulho o estômago só de pensar). Sei que o medo é meu e não pode paralisá-la. Mas – peço aqui mil perdões pelo clichê – agora faz muito mais sentido as 37 sms e 83 chamadas perdidas da minha mãe que de vez em quando apareciam quando eu deixava o celular no silencioso. Aliás, desculpa não ter atendido mãe.

Nota: Durante o texto a autora pausou duas vezes para conferir a respiração da filha.

Está tudo bem pessoal.

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