Retorno

Primeira sessão :)

Primeira sessão :)

Quando me tornei mãe, expandi. Acho engraçado quando dizem que depois de ser mãe a gente muda, porque embora eu sinta agora coisas que não sentia antes, pense coisas que não pensava antes e aja de forma que não agia antes, eu não me sinto mudada. Porque nada do que eu era foi transformado, nada passou a ser o contrário do que era, apenas nasceram coisas novas. Eu aumentei de tamanho. Foi como se de repente eu entrasse em contato com outras partes de mim que até então estavam ali, latentes. Amor latente. Um amor que sempre esteve ali e assim que pariu entrou em funcionamento.

De repente eu me redescobri. Eu, que vivo nesse mundo meio plástico meio metal, passei a me sentir mais orgânica do que nunca. Como se eu pudesse me sentir conectada a terra, ao universo de uma forma que nunca estive antes… finalmente me sentindo parte dele. Quando me tornei mãe retornei ao meu sentido mais primário. Um sentido sexual, instintivo, infantil, sensitivo que a gente não consegue descrever direito.

E fui tomada de uma arrogância sem fim. Uma arrogância de quem se sente água, leite e alimento. Prepotência de quem se vê pronta para ser loba na selva e criar garras a primeira ameaça. Confiança de quem se sente criança, descobrindo o mundo pequenininho, mas se sentindo um gigante.

Quando me tornei mãe minha carne, meu sangue e meus músculos ganharam novos significados. Minha força se pôs a minha frente, se apresentando para mim. Minha fraqueza me forneceu seu aconchego, minhas lágrimas me garantiram que nada disso era errado.

Quando me tornei mãe me senti simultaneamente criadora e criatura. Olhei minha cria e senti o mundo em minhas mãos. Olhei no espelho e me reconheci.

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Por uma gestação que gere o que importa

barriga-gravidezNos primeiros três meses da minha gravidez, eu fiquei paradinha. Não queria mostrar barriga, não queria fazer muito alarde, não queria começar a amar. Dentro de mim havia um medo estranho, uma sensação de que a qualquer momento eu ia perder o bebê.

Obviamente esse é um assunto complexo, tema para outro texto, mas onde quero chegar com isso: O primeiro passo que dei em direção a acreditar na maternidade foi comprar um daqueles “Livros do Bebê”. A partir dele estava oficializado, eu estava realmente me preparando para ser mãe, estava assumindo os riscos. Foi uma boa compra. Mas poderia ter sido uma das últimas.

Eu acho que a gente é pouco guiada durante a gravidez. Você está lá, com uma criança crescendo no útero. Tá, e aí? O que é que a gente faz? Dizem que a gente tem nove meses para se preparar para ser mãe. Beleza. Só não dizem como é que a gente se prepara para ser mãe.

De alguma forma é muito bom materializar a maternidade ainda durante a gestação. É bom ver que algo está sendo produzido, que as coisas estão mudando devagar. Isso ajuda a escapar da sensação de que estamos só paradas, esperando a maior reviravolta das nossas vidas começar. Mas nessa a gente cai em muita cilada.

A forma mais óbvia – e, claro, a mais induzida – de ver a gravidez se materializando é justamente: materializando. Tem berço aqui, carrinho ali, moisés de lá, bebê conforto, canguru, mamadeira, chupeta, brinquedo, roupinha de todo jeito, todo tamanho e… poxa! A gente se sente preparada para ser mãe! Um quarto separado, com cores suaves, uma decoração apropriada e parece que vai dar tudo certo. Estamos prontas para receber o nosso bebê. Tirando o fato de que não é assim que se recebe um bebê.

Eu, leiga, leiguíssima, jurava que todas essas coisas eram extremamente necessárias (parece ser, tanta loja, tanto estímulo), só não sabia como preparar a mais necessária: eu.

Não que não se precise comprar muita coisa. Filho é caro sim. Mas não tem nada que criança precise mais do que alguém para cuidar dela. E ninguém fala como é que a gente SE prepara para ser mãe. No sentido prático da coisa mesmo. Acho que muito pode partir dessa ideia de que não existe fórmula para criar filhoentão né, a gente deve saber. Mas não sabe.

A gestação precisa se voltar para dentro. Se dedicar a gerar bebê e mãe.

Porque uma mamadeira pode ser bacana, mas provavelmente será dispensável se você se preparar para amamentar. Preparar o peito, o corpo, a mente, o filtro de conselhos, ouvir as dicas, as evidências, as estatísticas. E, claro, música clássica ajuda no desenvolvimento intelectual do bebê, mas é a sua voz que vai ser como um abraço para os ouvidos. São as musiquinhas bobas que você souber cantar que vão embalar sua cria em casa, na visita aos parentes, andando na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

E o berço… mais de mil reais um berço, não é isso? Os berços deixam a gente apaixonada. Tão bonitos, tão grandes, tão representativos, tão… dispensáveis. Não importa o colchão que você comprar, nada será tão confortável para o seu bebê – e muitas vezes para você – quanto ter você ao lado dele.

slingO carrinho eu troquei por um pano de 20 reais que acalmava minha filha como mágica. A babá eletrônica que me ofereceram virou uma ida rápida a cada 15 minutos ao quarto… e depois o conhecimento do sono da minha filha… e por último um ouvido aguçadíssimo (relaxa, você também vai ter).

Precisamos tomar a gestação de volta em nossas mãos. Fazer dela um momento nosso, de aprendizado, de crescimento pessoal e de decisões.  Dá para gastar bem menos com autoconfiança e ela é bem mais útil do que aquela bolsa térmica de guardar mamadeira fria ou quente, dois compartimentos e o espaço extra para fraldas.

Precisamos nos informar. Saber sobre o nosso corpo, o nosso parto, nossos direitos, nossos desejos e… nossos filhos. Ou isso tudo é tomado de nós.

Nós somos tão importantes para os nossos filhos quanto as roupas que vestem seus corpos. Na realidade acho que bem mais mais, porque né, a técnica mamãe-canguru taí comprovando que a nossa pele na pele do bebê ajuda mais que uma encubadora.

Vamos aproveitar nossos nove meses para gerar mais mães e menos dívidas.

A você que abortou

A vida muda quando a gente engravida. É incrível como de um momento para o outro olhando o resultado de um exame a nossa vida muda. O nosso mundo vira de cabeça para baixo e a gente não sabe mais nada sobre nós. Esquecemos quem nós somos, o que pensamos, o que queremos. Por alguns minutos a gente só sabe que a nossa vida acabou de mudar.

E aí não tem mais volta. Simplesmente não tem mais volta. A gente só precisa parar e pensar no que vamos fazer dali em diante. A gente tem que voltar o mundo para o lugar e pensar prática e materialmente qual será a nossa opção: A primeira é abortar, a segunda é gestar e entregar o bebê para adoção, a terceira é se tornar mãe.

A minha opção foi a terceira. Tão digna, tão admirável… só que não. A partir do momento desse teste positivo não há nada  mais digno ou mais admirável a se fazer. Não há nenhuma opção fácil, simples ou óbvia. Há a menos difícil. E o conceito de dificuldade, convenhamos, é muito relativo.

Para mim foi menos difícil escolher ser mãe do que me propor a fazer um aborto ou a gestar um bebê que iria para outra pessoa. Para outras pode ser exatamente o contrário. E aqui entra a culpa social: A ideia de que optar pelo aborto é fácil, inconsequente, é indigno. Não é.

E dizem que quem aborta se arrepender pelo resto da vida. Mentira. A vida muda quando a gente engravida. Muda, mas não acaba. Independente do caminho que você escolha.

Claro que como todas as decisões que a gente toma na vida, existe o outro lado. O lado da dúvida, da incógnita e um pinguinho de arrependimento que volte-meia bate em todo mundo. Chamam de crise existencial, né?

Vamos sanar essa crise. Suponhamos que você tenha exatamente as mesmas condições que eu. Que você seja de classe média, que sua mãe tivesse te dado apoio e que você tivesse de fato essa vontade de ser mãe. Suponhamos então que você, que abortou, tivesse escolhido outro caminho… o mesmo que eu. Como seria a sua vida hoje?

Provavelmente seria muito boa, obrigada. Você sairia menos a noite e teria que se planejar melhor, mas estaria muito feliz brincando com seu filho. Assim como eu, se tivesse abortado, não estaria brincando com minha filha, mas estaria muito feliz saindo mais a noite e planejando menos.

Você teria mais dificuldade em ir para lugares diferentes, em viajar, em mudar de casa, de cidade, de país. Assim como eu teria facilidade se tivesse escolhido o mesmo caminho que você. Você pensa que em compensação estaria sempre acompanhada, eu penso que teria a independência e a solidão que tanto me fazem falta.

Você não se pegaria voltemeia olhando para as crianças na rua e pensando “como será que seria o meu filho hoje?”, bem como eu – caso tivesse feito a sua opção – não me pegaria de vez em quando nervosa, cansada, olhando a minha criança dentro de casa pensando “o que foi que eu fui fazer?”.

Você ficaria satisfeita ao chegar em casa e ver sua criança. Bem como eu poderia ficar satisfeita ao chegar em casa e descansar. Você sentiria a responsabilidade de escolher uma boa escola e eu sentiria a responsabilidade de saber qual meu próximo passo agora.

Você teria mais dificuldade em algumas coisas. Mais tristeza em outras. Se emocionaria mais com outras. E também teria mais facilidade em algumas coisas, mais alegria em outras, e mais frieza com algumas terceiras ou quartas coisas.

Provavelmente você iria se dar muito bem nessa jornada. Assim como eu me daria muito bem nesse outro caminho. Se tudo desse certo para nós, você seria feliz com a minha escolha e eu seria feliz com a sua. Mas nós não fizemos as escolhas uma da outra. Fizemos nossas próprias. Que bom, né?

Já mencionei que a vida muda quando a gente engravida? Muda porque a escolha de voltar atrás não existe, mas existem outras e não importa qual for a nossa, quando ela nos frustrar – e, convenhamos, não é tão raro a vida nos frustrar – a gente sempre vai parar de vez em quando para pensar como poderia ser diferente.

E eu gosto de pensar que provavelmente seria bom. Porque ter filhos pode de fato ser muito bom. Pode ser tão bom quanto não ter. A minha escolha e a sua foram apenas diferentes e não implicam em nosso grau de felicidade.

Ambas trouxeram consigo seus bônus e de vez em quando um “e se…”. E se fosse o contrário? Bem, seria  o contrário. Mas a parte engraçada é que esse contrário não é tão oposto assim. As nossas vidas tomaram rumos diferentes, mas foram os nossos rumos. As nossas escolhas que basicamente ajudam a formar quem nós somos e eu espero, de coração, que você goste de quem você é hoje, porque não há do que não se gostar.

Não há escolha certa. Não há definição de realização. Não há caminho mais claro, mais fácil, mais garantido.

Existe apenas a nossa vida hoje e o que de bom nós aprendemos com ela. Existe uma mudança, mas não uma perda. Existe apenas eu e você, em vidas tão opostas e sentimentos tão parecidos. Traçando a nossa própria felicidade.

Sites: This Is My Abortion
My Abortion My Life

Eu, que não te amava o bastante.

5 meses de barriga

A gravidez foi um período muito complexo e perturbado para mim. Foi por isso, inclusive, que fiquei um bom tempo sem escrever aqui. Era tudo muito confuso e assustador na minha cabeça e só hoje, depois de passada a tempestade eu consigo olhar para trás e enxergar com naturalidade o medo e os tabus que me assolaram.

Eu acredito que uma das frases mais difíceis de lidar (e que não deixava a minha cabeça um instante) era: Eu acho que não amo minha filha tanto quanto deveria.

Todo mundo me olhava com aquele brilho no olhar, aquela cobrança, aquele frisson como se quisessem me ver o tempo todo sorrindo e acariciando a barriga.  Bom, eu não estava. Eu havia decidido levar minha gravidez adiante, estava me sentindo bem com essa decisão, gostava de estudar sobre, de fazer planos para o bebê, mas… não amava como deveria. Não estava ansiosa, não pensava que o dia do nascimento dela seria o mais feliz da minha vida e não passava horas sonhando em como a vida seria completa com ela ao meu lado. Não tinha o brilho nos olhos que esperavam de mim.

A culpa me corroía. Eu pensava que então, já que não amava, devia ter era desistido da gravidez lá no começo. Me imaginava passando anos fingindo amá-la, fingindo me preocupar, quando na verdade não me sentia bem com isso. Era muito duro ver todos em volta parecendo tão melhores do que eu frente a minha própria vida.

Um dia fui conversar com a minha mãe (sempre essa linda) sobre isso e ela me contou que já sentiu o mesmo. Na gravidez dela teve um diálogo mental consigo mesma pensando “está tudo tão difícil, eu não queria estar grávida”… logo em seguida pensou “não, eu não posso pensar esse tipo de coisa porque se não o bebê sente” e finalizou com “mas que bosta, eu não posso nem PENSAR o que eu quiser por causa desse bebê!”. E é mais ou menos assim mesmo, a gente se sente culpada até pelo que pensa, pelo que sente, pelo que nem ao nosso alcance está.

Esse tal “amar tanto quanto deveria” é um ideal impossível de ser alcançado. A figura da Virgem Maria continua tão presente no imaginário popular que continuamos a nos sentir culpadas, continuamos sendo julgadas com base em sentimentos imaginários presentes mais nos outros do que em nós mesmas. Nunca seremos mães o suficiente para essa utopia.

Depois que a Rita nasceu essa cobrança continuou a estar presente na minha vida. “Mas você não se sente culpada saindo a noite enquanto sua filha está em casa?” Não. “Ai, mas você confia em outras pessoas para cuidar dela?” Sim. “Nossa, mas você deixa os outros pegarem ela? Não é muito difícil ver sua filha em outro colo?” Não.

Hoje eu sei exatamente a relação que tenho com a minha filha, eu sei que a conheço como nenhuma dessas pessoas com cobranças e brilho nos olhos conhece.

Porque é uma gracinha a ansiedade e o carinho alheios. Mas nenhuma dessas pessoas sabe qual é a cor preferida dela, a tipagem sanguínea, quantas vezes já ficou doente, a comida preferida, a música que faz dormir, as vacinas que ainda faltam, os lugares que ela gosta de cócegas e os que não gosta.

Todas essas pessoas que me olhavam fascinadas durante a gravidez tinham sim muito carinho pela minha filha. Mas nenhuma delas passava noites fazendo planos, nenhuma delas lia para a minha barriga, nenhuma delas sentia ela chutar e sorria sozinha quando o bebê soluçava no útero. Nenhuma delas passou a olhar mais antes de atravessar a rua,  parou de fumar ou simplesmente pegou na mão um exame Beta HCG quantitativo e tomou ali uma decisão de vida.

Por muito tempo eu tentei me enquadrar no ideal alheio, sem reconhecer meus próprios sentimentos, confusos, porém sinceros. Eu queria ter percebido antes que achar que não ama o suficiente já é o próprio amor.

Eu já sei fazer sozinha

Foi lá no Rio Grande do Norte, em Natal. O médico já havia dito fazia um mês que eu poderia estar sentindo alguma coisa, mas ainda nada. Eu a compreendo, ela de certo queria que fosse especial e já deve ter percebido que eu não sou nada fã desse inverno paranaense. Então ela esperou eu ir viajar para Natal, meu primeiro nordeste, em férias fora de época com minha mãe para aproveitar um passeio enquanto não tenho que correr atrás de dois pézinhos gordos que estão por vir.

Eu tinha passado a manhã toda na praia e voltei para o hotel com o enorme sono que ela me faz sentir. Antes de decidir dormir coloquei Alceu Valença para tocar, coisa que faço corriqueiramente no Paraná, mas convenhamos, depois de um banho de mar no nordeste fazia muito mais sentido. Desliguei a música e – depois de pedir mil desculpas para minha mãe, por não poder acompanhá-la no almoço – deitei na cama sem habilidade alguma, já que ainda estou me adaptando a esse novo corpo, e acabei de bruços. Eu ia virar, mas a preguiça e, claro, a vontade de dormir de bruços (já que é como dormi a vida toda) eram tantas que acabei ficando um tempo ali, quietinha e de bruços. E aí ela chutou.

Foi um chute de quem pensou que aquele era o momento certo, ou de quem queria dizer “mãe, você está me esmagando, levanta!” e a opção c é de que foi só um chute, um esbarro de alguém que estava tentando ficar mais confortável nesse apertado útero que não permite que ela se espreguice direito. Mas o fato é que a Rita chutou. Não eu, a Rita. Não minha barriga, a Rita. Foi a Rita.

Aquele chute declarou a existência de um ser vivo, inteiro. Minha filha, Rita, que embora ainda esteja dentro de mim, já é independente o bastante para chutar as paredes do meu útero sozinha. Ela deixou de ser uma extensão do meu corpo, saiu do mero campo visual da minha barriga. Agora somos nós duas.

Esse blog não é só sobre a gravidez. É sobre mim, sobre a Rita, sobre nós, o mundo que nos cerca e a nossa vida juntas.