Ao meu bebê capricorniano

Minha amada…

O final do ano vai chegando e com ele vem minha vontade de te escrever. Ao longo do tempo te vejo crescendo e, a beira de completar dois anos de idade, sinto a necessidade de falar sobre esse seu crescimento. Sobre quem fomos juntas nos últimos dias, semanas, anos (agora no plural).

Os amigos que, como eu, se interessam por astrologia, compreendem. Sempre que vou te descrever o diálogo é o mesmo.

– Pois é, minha filha é capricorniana, então…
– Ela nasceu adulta.
– Exato.

Confissão: Tenho medo de um dia ter que cuidar de um bebê de verdade. Que não saiba pegar o próprio potinho toda vez que ofereço frutas. Que não peça para escovar os dentes, não saia fechando os armários, não peça para pentear meus cabelos. Um bebê que seja realmente um bebê.

Eu amo te chamar de meu bebê. Meu neném. Minha filha, minha Rita. Amo a honra que você me dá quando me chama de “mamãe”. Amo esse título. Me sinto nomeada, homenageada cada vez que essa palavra sai da sua boca.

Simultaneamente acho incrível a sua capacidade de me lembrar que há muito ultrapassamos isso. Você não é apenas meu bebê. Não sou apenas sua mãe.

Essa semana fomos no parquinho. Te coloquei no balanço, no gira-gira, segurei sua mão para você andar em cima do banco. Briquei com você como uma mãe brinca com um bebê. Cada uma de nós exercendo nosso pré-determinado papel corretamente, tal como manda o figurino. Por pouco tempo.

“Senta mamãe”. Sentei. Primeiro no gira-gira. Depois no balanço. Você ama essa inversão de papéis. Me girou, me balançou, rindo até. Clássico bebê capricorniano.

Depois você me colocou em um balanço e sentou-se no balanço ao lado. Balançamos juntas. Sentou-se ao meu lado no gira-gira e giramos juntas. Segurou minha mão. Corremos juntas. Uma ao lado da outra. Como é a  nossa vida. Como tudo deve ser.

Desde que você nasceu vivemos um constante passeio ao parquinho: Eu cuido de você, você me cuida e,  por fim, estamos uma ao lado da outra. Caminhando juntas, de mãos dadas. Você é minha parceira, minha companheira.

Diante de tudo o que passamos, no final é só isso. Somos nós. Unidas, construindo tijolinho por tijolinho tudo o que nos envolve. Nosso lar, nosso caminho, nossa história. Somos aliadas. Por vezes eu tomo a frente, te balanço. E tem dias que quem assume a liderança é você, me gira.

Tudo isso para equilibrar. Para ficarmos lado a lado.

Não sei se você sabe, mas dizem por aí que sozinho se vai mais rápido, mas acompanhado se vai mais longe.

Vamos em frente, minha querida.

Com amor, mamãe.

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The greatest thing you’ll ever learn

…Is just to love and be loved in return.

Uma das primeiras verdades que ouvimos na vida é sobre o amor dos nossos pais. Eles nos amam. Pode vir da boca deles ou da dos outros, mas todo mundo concorda “sua mãe só faz isso porque ela te ama”.

Não vou nem entrar na questão do quanto esse tal amor fraternal é questionável enquanto natural. Nem no quanto é problemática essa visão do amor como uma justificativa sempre plausível e inviolável. Vou falar sobre uma epifania que me aconteceu recentemente.

Então eu amo a minha filha. E essa é a primeira coisa que ela vai saber sobre mim. E eu serei a primeira pessoa com quem ela terá algum contato sobre o amor. Como eu ainda não havia notado o tamanho dessa responsabilidade? Eu sou a base do que ela entenderá por amor. Sendo amada por mim é que ela começará aprender a amar.

Desde que ela nasceu a primeira consciência que tive sobre isso foi a da fala. Falar eu te amo não costuma ser fácil. Especialmente quando a gente ama de verdade. E mais especialmente ainda quando ama diariamente, 24h por dia, quando ama com raiva, quando ama cuidando, se esforçando, trabalhando. Quando se ama cansada, com rotina, com costume, se ama muito e se fala pouco. Então eu forço a memória e a garganta. Eu quero dizer eu te amo como se diz bom dia.

Também quero que tudo esteja alinhado. Ora, se vou dizer para minha filha que a amo é importante que essas palavras venham bem ilustradas com a nossa vida. Se a palavra amor – bem como todas as outras – por enquanto não tem significado algum para ela, sou eu que vou significar. E, atualmente, a melhor maneira que encontrei de fazer isso foi mostrando para ela o melhor do amor que há em mim.

Por isso eu tenho me esforçado (sim gente, é esforço, dá trabalho). Todo dia tenho procurado fazer as palavras “eu te amo” saírem da minha boca bem acompanhadas. De mãos dadas com mais calma, paciência, atenção, carinho, cuidado, confiança.

Todo dia eu decidi cantar antes de ela dormir. Demora mais, mas ela fica mais calma. Decidi que todo dia de manhã terá sessão de beijinhos e que eu não preciso levantar correndo, com pressa de viver. Dá para ganhar meia hora fazendo cócegas na barriga da minha filha para ela acordar sorrindo. Decidi que não preciso otimizar o tempo tanto assim. Que tem momentos que são só dela e não há outro afazer no mundo que mereça dividir isso conosco.

Decidi aprender a brincar mais, contar mais histórias, cantar mais músicas, dançar mais pela casa e respirar mais até dez. Decidi que preciso trabalhar quem eu sou e o que tenho de bom dentro de mim, para consequentemente despertar o que tem de bom dentro dela.

E há sim uma parte muito bonita nisso, porque quero que todas essas coisas boas influenciem na forma que ela vai amar os outros.

Mas há outra parte que é ainda mais bonita. Eu preciso me esforçar para entregar o melhor amor que há em mim porque essa é a forma de minha filha perceber exatamente qual o tipo de amor que ela merece. Para que ela conheça o amor bom como a única forma aceitável de amor. Para que o amor possessivo, violento, opressor – o amor que agride sob a justificativa dele próprio – não se apresente para ela antes de mim e a torne refém dele.

Bem como não faça dela uma cúmplice.

E, sabe, quando me toquei disso tudo, concluí que: Acho que essa é uma boa forma de começar a mudar o mundo.

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Luto pós-cesárea

Conversando com algumas amigas (grávidas; mães) senti a necessidade de escrever sobre esse assunto. Baseio-me única e exclusivamente na minha experiência, então não vou me arriscar a falar sobre pós-parto, apenas pós-cesárea, que foi o que vivi (cujo relato você encontra aqui). Pode ser que quem passa por um parto sinta o mesmo, pode ser que não, inclusive, se vocês que pariram puderem comentar sobre o assunto agradeço.

Também já li por aí que o chamado baby-blues (o que talvez seja justamente esse luto do qual pretendo falar) atinge cerca de 80% das mulheres. Talvez sejam justamente as 80% que fazem cesárea no Brasil, talvez não, enfim.

O que posso dizer sobre o assunto é que o nascimento da minha filha não marcou o nascimento da mãe em mim. É claro que mesmo antes de ela nascer eu já sentia algo especial, tanto é que comecei esse blog na primeira vez que ela chutou. Eu conversava com a barriga, fazia carinho, lia, cantava para ela, ficava enlouquecida quando não mexia e brigava quando mexia demais. Eu já me pensava uma mãe, mas ainda não entendia aquela coisa sem nome que diziam que era ser mãe.

E aí eu passei por uma cesárea. E posso dizer com certeza que os primeiros dias de vida da Rita foram simplesmente os dias mais confusos, transtornados, estranhos da minha vida. Até hoje não sei nomear os milhares de sentimentos estranhos – e por vezes opostos – que eu tive naquele momento.

A priori eu simplesmente não via um ser. Não vi minha filha. Parecia que tinha algo de muito errado no mundo, eu não sabia o que era, mas as coisas estavam simplesmente erradas. Não tinha aquele êxtase de todos, não conseguia olhá-la apaixonada, achá-la linda e ficar lá, “babando”como dizem. Muito menos falar com ela, conversar. O que eu sentia, na verdade era a sensação de ter algo arrancado de mim. Parecia que eu estava amputada e queria de volta o meu pedaço tomado. Da primeira vez que levantei da cama do hospital, olhei para baixo e me vi sem barriga, desmaiei.

Também me desesperava a ideia de ir para casa. Eu não sabia trocar a fralda de um recém-nascido, as enfermeiras me ensinaram. Eu não sabia o que ia fazer quando estivesse sozinha, como ia conseguir… dar banho, trocar a roupa, fazer dormir, eu não sabia fazer nada disso. Eu me sentia bem perdida. Se eu não sabia sequer como seria a minha vida de modo prático e material, como reconhecer algum sentimento? Não sei até agora descrever o que eu pensava, eu parecia também não saber o que fazer com o que sentia. Se não sei trocar fralda como saberei ser mãe? Como me sentir mãe? Eu não conseguia sorrir direito, eu não conseguia me comunicar. Era como se eu estivesse fora do meu corpo olhando tudo o que estava acontecendo e tentando entender.

Depois de três dias no hospital fui para casa e aí começou uma outra etapa: Os sonhos. Sabem os clássicos sonhos em que as pessoas estão caindo? Eu nunca havia tido. Mas quando fui para casa tive, durante três noites seguidas eu caí… e morri. Foram sonhos diferentes, alguns tinham referência a um deus, outros a um inferno, mas o resumo era sempre o mesmo, eu caia e morria. O engraçado é que durante a minha vida não lembro de ter tido muitos sonhos com finais, parece que eu sempre acordava no meio deles, mas esses tiveram, terminavam na morte. Não morrendo… morta.

Houve um dia que eu resolvi, com ela nos meus braços cantar Aquarela para ela. E chorei. Caí em um choro desesperado que não sabia explicar. E chorei durante muito tempo. Foi um choro de quem se sentia lotada, um choro de quem está tomada por uma coisa tão grande, tão grande que precisa transbordar. O choro, com direito a soluços e dor de cabeça foi a única expressão que eu encontrei para traduzir aquele momento da minha vida. Não dava para falar, para escrever, para manifestar de nenhuma outra forma… eu precisei chorar. E por mais algum tempo foi assim. Eu tentava conversar com a Rita e chorava, olhava para ela e chorava, lembrava que ela existia e chorava.

E foi assim que por volta de sete dias após o nascimento da minha filha, eu me tornei mãe. É muito difícil que as pessoas compreendam esse nosso período melancólico e confuso, mas bem, talvez ele seja necessário. Dizem que junto com cada criança nasce uma mãe. Mas psicologicamente falando (e me corrijam psicólogos se eu estiver errada), não há como nascer alguém dentro de nós sem que outra parte morra.

Eu precisei enterrar uma parte minha para dar lugar a outra. Talvez tenha sido justamente a parte insegura, silenciosa, confusa, já que passando essa fase foi justamente quando comecei a falar, brincar, amar e a reconhecer nela outro ser: minha filha.

O fantástico da criança e eu

Eu sou uma pessoa muito chata. Acho que talvez eu sempre tenha tido medo de crianças por causa disso. Nunca soube ser legal como elas. Nunca soube como chegar, conversar, interagir com elas sobre mundos imaginários, sobre outras dimensões, sobre esses lugares, esses bichos, esses seres que as crianças conhecem tão bem e nós não.

Nunca me animei a ler Harry Potter, nem as Crônicas de Nárnia. Também não sou nada chegada em romances em geral e mesmo as histórias fantásticas que gosto, gosto pela parte lúcida delas (O Labirinto do Fauno, por exemplo).

Mas aí veio a Rita. E quem já cuidou de bebês integralmente sabe que uma coisa mágica acontece com a gente: De repente, regredimos. É como se tudo o que está ligado a nossa infância estivesse armazenado no nosso inconsciente e de repente isso vem a tona. Não que a gente passe a se lembrar, mas isso se manifesta de alguma forma. A gente consegue se comunicar mais de maneira não-verbal, olhar nos olhos da nossa criança e compreende-la, colocá-la para dormir muito provavelmente da forma que nós gostávamos de dormir quando criança.

E nesse meu retorno eu tenho descoberto uma nova forma de se ver o dia-a-dia. Primeiro me interessei surpreendentemente por uma série chamada Once Upon a Time e amei. Eu que só costumava falar comigo mesma, agora ando cantando para alguém. Canto as músicas que conheço sobre borboletas, sobre gatinhas manhosas e sobre heróis cujos cavalos agora só falavam inglês.

Ontem no meio das nossas brincadeirinhas clássicas bateu um ventinho. E movida por esse ventinho eu joguei sobre nós duas uma coberta que, por coincidência, é cheia de bolinhas coloridas. Foi aí que a mágica entrou de vez na minha vida. Eu vi então que quando quisermos podemos fazer isso: Viver sob um céu de bolinhas coloridas, onde a gente pode cantar e imitar pássaros com as nossas mãos.

Estou pouco a pouco aprendendo a olhar esse outro lado do mundo: O que simplesmente não existe. O que a gente forma juntas, montando, imaginando, viajando no conhecido até que ele não faça mais sentido algum, ficando assim do nosso jeito.

Para ajudar meu sobrinho de seis anos ainda tem me dado uma mãozinha no assunto: “Tia Paula, o que acontece se um tiranossauro rex brigar com um urso polar?” olha, eu não sei, mas pelo jeito tenho avançado (ou regredido?) a um nível de não se importar em passar horas imaginando para descobrir.

Confiança

Rita já está grandinha. Com oito meses ela engatinha e passa um tempão brincando no tapete. Persegue os brinquedos e as outras coisas que não são tão brinquedos assim, como controles, telefones, livros, etc.

Acho que são sinais grandes de independência. A gente fica até um pouco assustada quando, pela primeira vez, vê que colocou a cria para brincar em um lugar e ela já está lá do outro. Provavelmente querendo brincar com algo que não pode.

Ela também já consegue se levantar sozinha. Se apoia na mesinha, na caixa de brinquedos, no sofá e fica ali de pezinha. Olhando a vida sob outra perspectiva. Deve ser interessante poder mudar de ângulo quando isso não é corriqueiro na vida da gente. Dá um trabalho danado, exige um esforço tremendo das pernas, dos braços e da força de vontade para ver a vida diferente no comecinho assim.

Até gravei um vídeo disso. Mas ficou virado. Sou excelente com tecnologia, não?

Mas, assim como eu, antes de ir para o meu primeiro show, aos onze anos de idade, abracei a minha mãe como se fosse a última vez que nos víamos, ela ainda se abraça a essa ideia de proteção chamada: Eu.

Se eu trouxer no colo, chegar e soltá-la no tapete é choro na certa. Eu preciso sentar junto. Ela passa um tempo sentada na minha perna, com a cabeça encostada no meu ombro, só olhando. Depois vê alguma coisa que a atrai. E aí já senta no chão, mas não vai lá brincar. Eu tenho que trazer o brinquedo para perto dela e mostrar que é bom. Apresentá-los como se fosse a primeira vez.

Passa um tempo ali, se revezando entre olhar o que tem em volta, brincar com o que eu entreguei e me abraçar. Até que vai. Vai engatinhar, mexer nas coisas, descobrir sozinha. E aí eu posso sair.

Quando consegue ficar de pé se apoiando em algum objeto passa um bom tempo ali. Mas não sabe descer. Então quando cansa começa a ficar nervosa, dá um chorinho de quem precisa de ajuda, uns gritinhos de quem não vê saída. Até que eu chego por detrás dela e dou minhas duas mãos para ela segurar. Ela nem precisa me ver, sabe que são minhas mãos que estão ali e que vão ajudá-la a caminhar para onde ela quiser. Pronto, está aberto o sorriso e as balbucias de alegria.

Independência é uma delícia. Mas quando a gente sabe que tem uma mão para segurar e um colo para sentar fica muito mais fácil engatinhar em direção a ela.

Breast is Best – Parte II

Amamentação e Empoderamento Feminino

A lactação foi uma grande surpresa para mim. Claro que eu já conhecia o básico da história, mas tinha uma visão muito superficial e simplista da coisa. O bebê nasce, a gente amamenta e é isso aí. E talvez para muita gente seja assim mesmo, mas para mim não foi.

Eu fico tentando buscar outra palavra para definir amamentação, mas até hoje nenhuma coube melhor do que essa: Poder. Amamentar faz com que eu me sinta absolutamente poderosa, como nunca me senti na vida. É um dos sentimentos mais fortes, agressivos, absolutos que já senti.

A lactação nos leva a um estágio muito primário e selvagem da nossa existência. Afinal a gente é sempre tão cercado por regras e compreensões humanas que chega a ser assustador percebermos que, no final das contas, não importa o que a gente faça, ainda somos mamíferos. Minha filha caçando o peito me lembrou muito os cachorrinhos que tantas vezes vi nesse processo de amamentação.

A questão que mais me deixou fascinada foi essa sensação de ser primordial. Fonte de vida no sentido mais visceral possível. E pode chamar de arrogante o quanto quiser, mas eu me sinto na base, no princípio de tudo. Afinal, tudo o que existe por mãos de homem ou mulher qualquer, teve uma mãe amamentando por trás (costumo dizer que inclusive o leite industrializado só existe porque alguém amamentou uma criança que cresceu e o inventou). A lactação me trouxe essa sensação de ser provedora, criadora.

É muito forte pensar essa capacidade materna de produzir o alimento do próprio filho. Uma mãe que amamenta está inconscientemente negando a posição de frágil, vulnerável e dependente que é imposta a mulher por uma sociedade machista. Somos tão grandes que não precisamos dessa indústria terceirizada e masculina para alimentar nossos filhos. Somos capazes de fazer sozinhas.

O ato de amamentar é expressão do poder materno e acho que, talvez por isso, a sociedade reaja de forma assustada a questão. Não é apenas a superotização e o controle do corpo feminino. Uma mulher que amamenta em público está lembrando a todos que a imagem de uma mãe não é a de virgem Maria, está muito mais para uma leoa, uma cachorra, uma loba. Alguém que tem em si força e independência grandiosas o bastante para prover sua cria em sua necessidade mais básica e instintiva como animal ser humano.

Propor a industrialização do alimento do bebê é tirar da mulher essa força  que nos é inerente e de direito. Quem propõe que não amamentemos com nosso próprio seio quer nos tirar a vantagem de estar além de qualquer possibilidade material de produção já inventada. Quer nos enfraquecer.

Eu digo sempre que amamentação é vida. E é. No sentido mais literal e visceral que a palavra “vida” pode ter.

Criando meninos

O momento mais feliz da minha vida foi quando soube que teria uma menina. É algo horrível de se dizer, eu sei. Mas infelizmente é verdade, e se querem saber o pior, a sensação foi de alívio. Sim, eu tinha medo de estar esperando um menino. Não acho que será nem um pouco mais fácil criar uma menina, mas particularmente eu me sinto mais preparada para tal tarefa. Alguns pontos na criação dos meninos me doem na alma e é sobre eles que eu vou falar hoje.

Esse vídeo foi indicado pela minha amiga Gizelli Sousa e além de expressar bem o que eu quero dizer, é emocionante, recomendo muito. Para assistir é só selecionar “Português Brasil” logo abaixo do vídeo, onde está escrito “Subtitles Available in:”.

Dois homens na minha família tem medo de escuro: o meu sobrinho de cinco anos e o meu pai. A diferença entre os dois é que meu pai já inventou as mais diversas desculpas, costumava dizer que era por causa dos filhos, depois veio uma tal de necessidade de localização (?) e assim por diante.  Meu sobrinho, em compensação, até pouco tempo atrás tinha a coragem de admitir esse medo. Isso está sendo tirado dele. Frases como “homem que é homem não tem medo” e outras no estilo estão sendo continuamente repetidas aos ouvidos do meu garoto e ele está absorvendo-as, obviamente.

Esses dias ele virou para mim e disse: Eu não tenho medo de nada. Eu, como tia bruxa fugitiva desvirtuando o garoto dos caminhos da lei, puxei ele em um canto e falei baixinho: Todo mundo tem medo, até o seu avô tem medo. Ele ficou muito assustado: O vovô tem medo? Fiz que sim com a cabeça e emendei uma conversa tentando explicar que ser corajoso é admitir seus medos e enfrentá-los. Não bastando ainda tive a pachorra de dizer que se ele tivesse vergonha de falar para as outras pessoas sobre os seus medos podia sempre contar para mim e eu ia ajudar ele a enfrentá-los. Ele me abraçou e disse: Tia Paula, eu quero ir no banheiro, você fica ali na porta do lado de fora? Eu fui.

As pessoas tem uma enorme necessidade de cobrar posturas masculinas (o que Tony Porter se refere no vídeo como a caixa do macho) de meninos. Meninos são reprimidos diversas vezes e por várias pessoas diferentes por terem atitudes como dançar, sentir medo ou chorar. Não é coisa de homem, certo?  O que não vêem é que meninos não são homens. São crianças. E crianças não precisam e nem devem agir como adultos. Meninos devem ter direito a passar por todas as fases sem se preocupar com a postura que tanto assusta os homens, eles devem ter o direito de ser eles mesmos.

O mito que ronda a nossa sociedade de que homens são seres frios e sem sentimentos os aprisiona. E o pior, costuma ser passado de geração em geração. Me desculpem por dizer, mas é um ato quase sádico de homens que foram criados com essas exigências quererem fazer as mesmas aos novos futuros homens, porque não importa o quanto eles se iludam, no fundo sabem que ter suas emoções amarradas dessa forma não os ajudou a crescer, apenas os deixou com rancor de quem fez isso com eles e um medo ainda maior de ser eles mesmos.

Meu sobrinho já consegue dormir no escuro se acompanhado e a quantidade de luz que ele precisa quando sozinho é bem menor que antes. Já o meu pai, provavelmente ouviu demais que “homem que é homem não tem medo”, por isso nunca admitiu sequer para si mesmo esse medo, logo nunca o enfrentou e então hoje, não com 5, mas 50 anos, continua precisando dormir com a porta entreaberta e uma luz acesa. Reprimir os medos de um menino na ansiedade de que ele se torne um homem é formar um adulto inseguro para o resto da vida.