O fantástico da criança e eu

Eu sou uma pessoa muito chata. Acho que talvez eu sempre tenha tido medo de crianças por causa disso. Nunca soube ser legal como elas. Nunca soube como chegar, conversar, interagir com elas sobre mundos imaginários, sobre outras dimensões, sobre esses lugares, esses bichos, esses seres que as crianças conhecem tão bem e nós não.

Nunca me animei a ler Harry Potter, nem as Crônicas de Nárnia. Também não sou nada chegada em romances em geral e mesmo as histórias fantásticas que gosto, gosto pela parte lúcida delas (O Labirinto do Fauno, por exemplo).

Mas aí veio a Rita. E quem já cuidou de bebês integralmente sabe que uma coisa mágica acontece com a gente: De repente, regredimos. É como se tudo o que está ligado a nossa infância estivesse armazenado no nosso inconsciente e de repente isso vem a tona. Não que a gente passe a se lembrar, mas isso se manifesta de alguma forma. A gente consegue se comunicar mais de maneira não-verbal, olhar nos olhos da nossa criança e compreende-la, colocá-la para dormir muito provavelmente da forma que nós gostávamos de dormir quando criança.

E nesse meu retorno eu tenho descoberto uma nova forma de se ver o dia-a-dia. Primeiro me interessei surpreendentemente por uma série chamada Once Upon a Time e amei. Eu que só costumava falar comigo mesma, agora ando cantando para alguém. Canto as músicas que conheço sobre borboletas, sobre gatinhas manhosas e sobre heróis cujos cavalos agora só falavam inglês.

Ontem no meio das nossas brincadeirinhas clássicas bateu um ventinho. E movida por esse ventinho eu joguei sobre nós duas uma coberta que, por coincidência, é cheia de bolinhas coloridas. Foi aí que a mágica entrou de vez na minha vida. Eu vi então que quando quisermos podemos fazer isso: Viver sob um céu de bolinhas coloridas, onde a gente pode cantar e imitar pássaros com as nossas mãos.

Estou pouco a pouco aprendendo a olhar esse outro lado do mundo: O que simplesmente não existe. O que a gente forma juntas, montando, imaginando, viajando no conhecido até que ele não faça mais sentido algum, ficando assim do nosso jeito.

Para ajudar meu sobrinho de seis anos ainda tem me dado uma mãozinha no assunto: “Tia Paula, o que acontece se um tiranossauro rex brigar com um urso polar?” olha, eu não sei, mas pelo jeito tenho avançado (ou regredido?) a um nível de não se importar em passar horas imaginando para descobrir.

Confiança

Rita já está grandinha. Com oito meses ela engatinha e passa um tempão brincando no tapete. Persegue os brinquedos e as outras coisas que não são tão brinquedos assim, como controles, telefones, livros, etc.

Acho que são sinais grandes de independência. A gente fica até um pouco assustada quando, pela primeira vez, vê que colocou a cria para brincar em um lugar e ela já está lá do outro. Provavelmente querendo brincar com algo que não pode.

Ela também já consegue se levantar sozinha. Se apoia na mesinha, na caixa de brinquedos, no sofá e fica ali de pezinha. Olhando a vida sob outra perspectiva. Deve ser interessante poder mudar de ângulo quando isso não é corriqueiro na vida da gente. Dá um trabalho danado, exige um esforço tremendo das pernas, dos braços e da força de vontade para ver a vida diferente no comecinho assim.

Até gravei um vídeo disso. Mas ficou virado. Sou excelente com tecnologia, não?

Mas, assim como eu, antes de ir para o meu primeiro show, aos onze anos de idade, abracei a minha mãe como se fosse a última vez que nos víamos, ela ainda se abraça a essa ideia de proteção chamada: Eu.

Se eu trouxer no colo, chegar e soltá-la no tapete é choro na certa. Eu preciso sentar junto. Ela passa um tempo sentada na minha perna, com a cabeça encostada no meu ombro, só olhando. Depois vê alguma coisa que a atrai. E aí já senta no chão, mas não vai lá brincar. Eu tenho que trazer o brinquedo para perto dela e mostrar que é bom. Apresentá-los como se fosse a primeira vez.

Passa um tempo ali, se revezando entre olhar o que tem em volta, brincar com o que eu entreguei e me abraçar. Até que vai. Vai engatinhar, mexer nas coisas, descobrir sozinha. E aí eu posso sair.

Quando consegue ficar de pé se apoiando em algum objeto passa um bom tempo ali. Mas não sabe descer. Então quando cansa começa a ficar nervosa, dá um chorinho de quem precisa de ajuda, uns gritinhos de quem não vê saída. Até que eu chego por detrás dela e dou minhas duas mãos para ela segurar. Ela nem precisa me ver, sabe que são minhas mãos que estão ali e que vão ajudá-la a caminhar para onde ela quiser. Pronto, está aberto o sorriso e as balbucias de alegria.

Independência é uma delícia. Mas quando a gente sabe que tem uma mão para segurar e um colo para sentar fica muito mais fácil engatinhar em direção a ela.