Um ano, um abraço e uma pitada de orgulho

Esse vai ser um post egocêntrico. Bem egocêntrico mesmo. Aliás, já ouvi muita gente dizendo que se tornar mãe ou pai é uma das coisas mais egocêntricas que a gente pode fazer. Não discordo.

Já no final do ano passado comecei a me preparar para voltar ao mundo, do qual eu tinha ficado escondida durante o último ano todo. Trabalho, faculdade, mil e um projetos me aguardando lá fora depois de eu ter por tantos dias me dedicado exclusivamente a um: Rita.

Nesse movimento é muito fácil a gente se culpar. Temer. E agora? Como ela vai ficar longe de mim? Como eu vou ficar longe dela? E se a gente se afastar? E se ela não for mais tão próxima assim de mim? E se dentro de um ano me perguntarem quem é minha filha e eu não souber responder direito como sei hoje? Pois é. Muita paranoia para pouca pessoa, mas o nome disso é ser humano.

Em retrospectiva eu percebi naturalmente o quanto 2012: O Ano da Maternidade havia me feito bem. E não entendam mal, não foram só flores por aqui. Teve surto, choro, sangue, suor, gritos e mil e uma crises (que minhas queridas MqNSP acompanharam de perto) bem difíceis de lidar. Mas o saldo foi positivo. No final disso tudo eu sinto que fiz exatamente o que queria ter feito, o que estava pronta para fazer e, sem dúvidas, tudo o que estava ao meu alcance.

Agora estava difícil eu enxergar o outro lado da moeda. Fiquei tanto tempo pensando em como seria ficar longe dela que não conseguia focar no quão perto dela eu estive todo esse tempo. Até que recentemente ela começou a abraçar. E ontem, quando cheguei do meu primeiro dia de aula, foi o que ela fez. Veio correndo, sorrindo, me abraçou forte e não soltou mais.

Como quem sabe exatamente o que está fazendo, entende?

E foi aí que eu vi: Em um ano e (quase) dois meses eu criei uma pessoa que abraça.

No caminho que nós traçamos esse ano, entre um percalço e outro teve muita shantala, muita amamentação, muitas cócegas, banhos, mãos dadas, muito sling, muitas músicas inventadas, muito carinho na barriga para passar a dor, muito sono compartilhado, muito abraço no meio da noite, muito beijo de bom dia.

zerandoEsse ano eu fiz comida saudável, brinquei de esconder, inventei e reinventei mil e uma maneiras de deixar a hora da troca da fralda mais divertida (ela odeia, cada vez é um desafio), falei “eu te amo”, dei colo e aprendi a conversar com quem não fazia ideia do que eu estava dizendo, só para ela entender que pode confiar nas minhas palavras.

No fim das contas, obviamente não sozinha (com muita, muita ajuda da minha mãe <3), eu consegui criar a Rita que ela é hoje. Um bebê que dentro de um ano ficou realmente doente uma única vez. Que abraça, manda beijo e conversa o tempo todo. Faz carinho em cachorros e gatos, anda confiantemente para tudo quanto é lado, segura a nossa mão, sorri para câmeras, come bem, bebe água, se apega com facilidade, não tem medo de pisar na terra, brinca de “achou” e sem sombra de dúvidas (essa é a parte que mais me orgulho) ri infinitamente mais do que chora.

Eu avisei que esse seria um post egocêntrico. Porque no meio de tanta pressão para ser a mãe ideal, alivia o nosso coração olhar para trás e perceber que se nossos filhos são quem são é porque tem muito de nós ali.

And sometimes we should be proud.

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Retorno

Primeira sessão :)

Primeira sessão :)

Quando me tornei mãe, expandi. Acho engraçado quando dizem que depois de ser mãe a gente muda, porque embora eu sinta agora coisas que não sentia antes, pense coisas que não pensava antes e aja de forma que não agia antes, eu não me sinto mudada. Porque nada do que eu era foi transformado, nada passou a ser o contrário do que era, apenas nasceram coisas novas. Eu aumentei de tamanho. Foi como se de repente eu entrasse em contato com outras partes de mim que até então estavam ali, latentes. Amor latente. Um amor que sempre esteve ali e assim que pariu entrou em funcionamento.

De repente eu me redescobri. Eu, que vivo nesse mundo meio plástico meio metal, passei a me sentir mais orgânica do que nunca. Como se eu pudesse me sentir conectada a terra, ao universo de uma forma que nunca estive antes… finalmente me sentindo parte dele. Quando me tornei mãe retornei ao meu sentido mais primário. Um sentido sexual, instintivo, infantil, sensitivo que a gente não consegue descrever direito.

E fui tomada de uma arrogância sem fim. Uma arrogância de quem se sente água, leite e alimento. Prepotência de quem se vê pronta para ser loba na selva e criar garras a primeira ameaça. Confiança de quem se sente criança, descobrindo o mundo pequenininho, mas se sentindo um gigante.

Quando me tornei mãe minha carne, meu sangue e meus músculos ganharam novos significados. Minha força se pôs a minha frente, se apresentando para mim. Minha fraqueza me forneceu seu aconchego, minhas lágrimas me garantiram que nada disso era errado.

Quando me tornei mãe me senti simultaneamente criadora e criatura. Olhei minha cria e senti o mundo em minhas mãos. Olhei no espelho e me reconheci.

Um amor que não come o medo da morte

A criança nasceu. É fralda para trocar, peito para dar, banho para tomar, umbigo para cuidar, carinho para compartilhar, susto, surpresa, amor, cuidado, força, luto, um monte de outros afazeres, um monte de outros sentimentos. E o medo. Ah, o medo.

Eu não pretendo aqui falar em nome de todas as mães. Sei que a gente sente diferente e, bem, isso é ótimo. No meio de todas nós, há de ter quem se sinta bem diferente de mim. Mas, olha, a minha experiência bateu muito sobre o que a gente costuma ouvir a respeito das mães por aí viu?

Porque a criança nasceu. E de repente a vida passou a ser tão frágil.

De todos os afazeres maternos (que são muitos e são diários), sem dúvidas, o que mais repeti até hoje foi: Conferir se a barriguinha está mexendo para ter certeza de que ainda está respirando.

Assim que a Rita nasceu lembro de pensar que agora entendia o que levava as pessoas a crerem em um deus. Porque lá estava eu, na minha primeira noite com minha filha em casa, sabendo que, entre outras coisas, existia algo chamado Síndrome da Morte Súbita. De repente bate a ideia de que aquele serzinho que você acabou de gerar pode afogar com o próprio leite, sufocar no próprio manto ou simplesmente parar de respirar e não acordar mais. E se você não tem nada para se apoiar, qualquer coisa que te faça acreditar que, por algum motivo, nenhuma dessas coisas vai acontecer com o seu bebê, você passa a noite em claro, olhando a barriguinha se mexer. Eu passei assim.

Pois bem, o fato é que muita gente já me perguntou sobre esse fator medo que acomete as mães. E não, eu não sei responder porque ele surge. Não tenho nenhuma explicação científica, psicológica, filosófica nem poética que o justifique. Só sei que sinto.

A princípio o medo era imenso e não era só sobre a Rita. Era sobre mim também. Cheguei a pensar que poderia estar desenvolvendo ma Síndrome do Pânico ou coisa do tipo. Era medo de pegar elevador, de atravessar a rua, de repentinamente o prédio desabar (?). E se eu me machucar? E for parar no hospital? Como ela vai mamar? E se eu morrer, senhor e se eu morrer, quem vai cuidar dela?

Eu sentia um medo nível ir para cama, abraçar a filha e chorar quietinha, pensando que tanta coisa horrível pode acontecer, que a gente é tão pequenininha e tudo é tão perigoso. Um medo que paralisa, sabe? Por sorte, essa fase desesperadora inicial passou em poucos meses (acho que não chegou a completar três) e eu aprendi a conviver com o medo.

Você não pode se livrar dos seus medos… mas você pode aprender a conviver com eles – Mais chá?

Tranquilamente sei que tenho medo. E não tenho mais medo de ter medo. Sei que a vida é frágil, mas depois de tantas vezes vendo Rita engatinhando, caindo, rolando, batendo a cabeça, testa, bochecha, sei também que não é tanto assim.

Agora que Rita completou um ano eu estou tendo uma fase de medo novamente. Não se compara ao que senti quando ela nasceu, já não temo tanto pela minha vida, acho que porque sei que estou criando uma filha forte e, principalmente, porque já conheço exatamente em quem confiar a vida dela. Sei que ela tem outras mãos para cuidar dela que não as minhas. Mas com relação a ela, a coisa voltou forte. Dia desses acordei a pobre coitada da criança chacoalhando brutalmente porque não estava vendo a barriguinha mexer e entrei em desespero. Delicadeza materna.

Imagino eu (e aqui tem um belo de um achismo) que o medo vem acompanhar as mudanças muito grandes porque a gente não sabe bem como lidar com elas, né? Papinho reacionário, eu sei, mas se cortar o cabelo gera um frio na espinha desesperador, imagina o nó na garganta que não dá cuidar de outra vida. Minhas duas “crises de medo” se deram nas seguintes situações: Primeiro, nasceu. Depois, completou um ano, começou a andar, falar e fugir do meu colo. Precisa de tudo isso assim tão de repente, Rita? Precisa?

É claro que ao longo da vida eu vou ter que aprender a lidar com isso. Que um dia vou ter que deixar ir em uma viagem de carro com os amigos (embrulho o estômago só de pensar). Sei que o medo é meu e não pode paralisá-la. Mas – peço aqui mil perdões pelo clichê – agora faz muito mais sentido as 37 sms e 83 chamadas perdidas da minha mãe que de vez em quando apareciam quando eu deixava o celular no silencioso. Aliás, desculpa não ter atendido mãe.

Nota: Durante o texto a autora pausou duas vezes para conferir a respiração da filha.

Está tudo bem pessoal.

Há um ano eu te esperava

Ainda é de madrugada, mas já é dia 28. Popularmente a gente já considera seu aniversário, seu primeiro ano de vida. Mas oficialmente, há 365 dias atrás você ainda não tinha nascido.

Ironicamente eu estou agora sentada no mesmo lugar que estava há um ano atrás. E nem é propositalmente (embora você saiba que eu sou chegada nessas de deixar as coisas mais simbólicas e dramáticas). Também ironicamente há um ano eu escrevia. Ou seja: Tudo está praticamente igual. Exceto pelo fato de estar completamente diferente.

Há um ano eu te sentia dentro de mim, se escondendo em minhas costelas, chutando o lado esquerdo, se esticando inteira. Eu equilibrava copos e garrafas na barriga para espantar o tédio e esperava pelo dia seguinte, quando você chegaria. Hoje e há um ano a ansiedade tomava conta de mim e eu fiquei procurando me distrair de madrugada.

Há um ano eu não consegui dormir. Eu sentia o estômago embrulhado, o suor frio, a inquietude, o sangue correndo rápido pelo meu corpo, o coração disparado e o pensamento de: E agora? O que vai ser agora?

Há um ano eu te esperava chegar e mudar a minha vida. Eu sabia que você iria mudar a minha vida. Eu deveria ter ficado calma, tranquila e aproveitado para dormir bem a noite, apenas aguardando você chegar aqui fora e mudar a minha vida.

Mas é que eu não sabia como seria o seu sorriso, qual seria o seu olhar, sua voz. Eu não conhecia o seu jeito de me agarrar com as mãozinhas, de fungar ou de encostar a cabeça no meu ombro quando fica tímida. Eu não sabia como você ia mudar a minha vida até que você chegou com todas essas coisas. Com toda essa Rita.

Eu não sabia que você ia ter mania de mamar arranhando meu peito, nem que um dia iria se esconder atrás das minhas pernas brincando com as visitas. Eu não tinha noção de que você gostaria tanto de água, de brincar de se esconder e das cócegas embaixo do braço. Não sabia que você dormiria quando eu fizesse carinho da testa para o nariz e nem que ia rir tanto quando eu imitasse o barulho de um pato.

Há um ano eu sabia que você chegaria. Mas não sabia quem era você. Há um ano eu te sentia dentro da minha barriga e nem podia imaginar o que fazer quando você viesse de lá para as minhas mãos. Deve ser por isso que a ansiedade batia forte.

Deve ser por isso que hoje a ansiedade bate forte. Porque hoje, um ano depois, eu estou aqui, esperando você mudar a minha vida. Eu sei que você vai mudar a minha vida.

Eu sei que um dia você vai me dar um olhar que nunca deu, vai me chamar de mamãe, vai dançar sozinha, vai contar uma piada, vai fazer uma pose que nunca fez, alcançar um lugar que nunca alcançou, rir de algo que nunca riu, descobrir alguma coisa nova. E vai mudar a minha vida.

Eu sei que cada dia mais você vai ficando mais parecida consigo mesma. E eu vou me sentindo transformada em cada gesto de Rita que você traz para mim. Obrigada por se descobrir e descobrir o mundo. Obrigada por morar na minha casa e me deixar ver de perto cada uma das suas caras, manias, vontades, curiosidades, verdades. Obrigada por me deixar ser tão eu, apenas sendo você.

Obrigada pelas 365 vezes que você mudou a minha vida neste ano. Mal posso esperar pelas próximas.

Carta aberta no seu mês de aniversário

Querida filha…

Ainda que me encante a felicidade de fevereiro e o clima de outubro, para mim nada se compara a Dezembro. O último mês do ano me deixa completamente apaixonada e você provavelmente vai reparar que em Dezembro eu tenho o costume de olhar para o céu, sorrir sem motivo e ter algumas ideias estúpidas como dançar no meio da rua.

Para completar Dezembro ainda tem você. Em um dia 28 de Dezembro você chegou. Porque não basta que duas das minhas festas favoritas fiquem a apenas uma semana de distância uma da outra, para completar no meio tinha que ter você. Mais um motivo para comemorar, mais uma desculpa para reunir todo mundo que a gente gosta, mais uma razão para eu enlouquecer de correria e felicidade.

Eu nem sei se a sua objetividade capricorniana te permitirá ver com os olhos de mágica que eu vejo Dezembro – embora, coincidência ou não, a maioria dos capricornianos que eu conheço se permitam ficar mais emocionais nessa época do ano – mas de qualquer forma, seu ascendente em Peixes está aí para te deixar mais avoada, esperançosa, viajada.

Eu espero, então, que você consiga ver realmente os presentes que irá ganhar nessa época do ano. Dezembro vai te trazer muito mais do que um natal, um aniversário e um ano novo para fechar com chave de ouro.

Todo ano Dezembro vai te dar calor e a princípio umas boas férias. Dezembro vai te trazer cheiro de frutas frescas, gosto de panetone e uma energia de renovação gostosa. Dezembro tem a capacidade de nos deixar saudosistas, nostálgicas, melancólicas e simultaneamente esperançosas, planejadoras.

No mês do seu aniversário você sempre vai ganhar umas apresentações pela cidade e a possibilidade de ver gente feliz por aí. Vai ganhar  um dia maior, umas crianças na rua até tarde, umas luzes espalhadas pela cidade e umas músicas repetitivas que grudam na nossa cabeça. De presente para você a vida vai ficar toda brilhosa, vermelha e dourada, mas dentro da sua casa você pode colocar as cores que quiser.

Os sorrisos dos desconhecidos de Dezembro vão te fazer querer sorrir também. E se você quiser dar uma passadinha pela rodoviária nessa época do ano vai ver tanta saudade expressa em abraços que vai querer expressar também. Dezembro vai te dar piadas de pavê, apertões de bochechas e gente dizendo como você cresceu, o que vai ser bem irritante, mas sei que você conseguirá ver o carinho por trás desses atos.

E se tudo der certo, no último mês do ano você também terá uma mãe correndo feito louca dentro de casa, arrumando as uvas e os pêssegos em cestas para a ceia de natal e te ensinando a cortar a melancia em ziguezague e fazer bolinhas com o miolo dela. Vai me pedir um bolo para adoçar o dia 28 e no dia trinta e um vai me ouvir dizendo o quanto eu quero que todos os seus sonhos se realizem… no ano que vai chegar.

Provavelmente no meio de tudo isso você vai rir de mim e dizer o quanto eu sou clichê ou então vai vir junto comigo e se empolgar bobagem toda. Nos dois casos eu prometo te responder com um abraço bem apertado e um cheirinho no pescoço.

Se ainda assim você em um ano ou outro tiver um fim de ano meia boca, a gente se esforça para compensá-lo durante todos os outros meses do ano, pode ser?

Feliz Dezembro para você.

Por um amor mais café com pão

Ah, o amor romântico! Esse mito ocidental que padroniza nossas relações. Todas elas. É complicado falar desse assunto porque mexe com o âmago das pessoas. É difícil admitir que fomos condicionados a amar de determinada forma e que isso é questionável. É difícil repensar algo tão profundo quanto nossos próprios sentimentos. Mas bem, vou ter que fazer isso.

Desde o namorinho da infância até o amor materno é condicionado. O que não falta é pressão sobre o “amor de verdade”. As pessoas criam expectativas (e já falei sobre isso aqui) e testes para saber quanto vale o seu amor. Querem um amor extremo, um amor que viva sempre no limite, um amor de provas. Muito mais provas do que amor, convenhamos.

Entre as mães então, é padronizado que amamos nossos filhos desse jeito máximo. É óbvio que amamos nossos filhos mais do que tudo no mundo. Que se tivéssemos que escolher entre qualquer outra coisa (uma carreira, um romance, uma aventura) e nossos filhos optaríamos por eles. O nosso amor é medido o tempo todo. E tem que passar por esse crivo, esses testes imaginários (convenhamos, quantas vezes na vida temos que de fato fazer escolhas fatais assim?) para que seja válido. Só assim comprovamos que na maternidade encontramos o “verdadeiro significado do amor”.

De qual amor? Ora, que padronização mais chata. Como medir algo tão fluido quanto o amor? Como determiná-lo dessa maneira estagnada? Se o amor nada mais é do que uma relação entre pessoas distintas?

Para mim funciona diferente. Eu não quero esse amor materno divino, intocável e inquestionável. Eu não me identifico com essa idealização. Eu não quero amar dos extremos, não quero amar na hora da escolha. Eu não quero que seja maior que tudo, maior que eu, maior que qualquer amor de qualquer pessoa. Eu só quero que seja nosso.

O meu amor é café com pão. Esse amor que eu vejo toda vez que abro os olhos no meio da noite para te ver dormindo. O amor que acorda com você pulando na cama gritando “tatata” e responde “mas já, filha? Me deixa dormir mais um pouquinho”. Meu amor está nas músicas que eu invento para te fazer sorrir, está no meu ouvido treinado que reconhece o seu choro a distância. Meu amor é plausível, é palpável.

Esse amor de quem bate palmas juntinho a cada colherada de comida, um amor que sai encharcado da hora do banho. Amor que se abraça durante a noite, que anda de mãos dadas, que trava uma briga na hora de cortar as unhas.

O meu amor não está nos limites, não está no imaginário, no “o que eu faria se…”. O meu amor está no agora. É um amor de dia e noite, de cotidiano, de construção (e essa sou eu citando músicas do Chico Buarque compulsivamente). É um amor de pequenos sorrisos, de cócegas e carinhos.

Eu quero um amor menos padrão e mais concreto. E para isso a gente precisa colocar todo dia um tijolinho.

Eu, que não te amava o bastante.

5 meses de barriga

A gravidez foi um período muito complexo e perturbado para mim. Foi por isso, inclusive, que fiquei um bom tempo sem escrever aqui. Era tudo muito confuso e assustador na minha cabeça e só hoje, depois de passada a tempestade eu consigo olhar para trás e enxergar com naturalidade o medo e os tabus que me assolaram.

Eu acredito que uma das frases mais difíceis de lidar (e que não deixava a minha cabeça um instante) era: Eu acho que não amo minha filha tanto quanto deveria.

Todo mundo me olhava com aquele brilho no olhar, aquela cobrança, aquele frisson como se quisessem me ver o tempo todo sorrindo e acariciando a barriga.  Bom, eu não estava. Eu havia decidido levar minha gravidez adiante, estava me sentindo bem com essa decisão, gostava de estudar sobre, de fazer planos para o bebê, mas… não amava como deveria. Não estava ansiosa, não pensava que o dia do nascimento dela seria o mais feliz da minha vida e não passava horas sonhando em como a vida seria completa com ela ao meu lado. Não tinha o brilho nos olhos que esperavam de mim.

A culpa me corroía. Eu pensava que então, já que não amava, devia ter era desistido da gravidez lá no começo. Me imaginava passando anos fingindo amá-la, fingindo me preocupar, quando na verdade não me sentia bem com isso. Era muito duro ver todos em volta parecendo tão melhores do que eu frente a minha própria vida.

Um dia fui conversar com a minha mãe (sempre essa linda) sobre isso e ela me contou que já sentiu o mesmo. Na gravidez dela teve um diálogo mental consigo mesma pensando “está tudo tão difícil, eu não queria estar grávida”… logo em seguida pensou “não, eu não posso pensar esse tipo de coisa porque se não o bebê sente” e finalizou com “mas que bosta, eu não posso nem PENSAR o que eu quiser por causa desse bebê!”. E é mais ou menos assim mesmo, a gente se sente culpada até pelo que pensa, pelo que sente, pelo que nem ao nosso alcance está.

Esse tal “amar tanto quanto deveria” é um ideal impossível de ser alcançado. A figura da Virgem Maria continua tão presente no imaginário popular que continuamos a nos sentir culpadas, continuamos sendo julgadas com base em sentimentos imaginários presentes mais nos outros do que em nós mesmas. Nunca seremos mães o suficiente para essa utopia.

Depois que a Rita nasceu essa cobrança continuou a estar presente na minha vida. “Mas você não se sente culpada saindo a noite enquanto sua filha está em casa?” Não. “Ai, mas você confia em outras pessoas para cuidar dela?” Sim. “Nossa, mas você deixa os outros pegarem ela? Não é muito difícil ver sua filha em outro colo?” Não.

Hoje eu sei exatamente a relação que tenho com a minha filha, eu sei que a conheço como nenhuma dessas pessoas com cobranças e brilho nos olhos conhece.

Porque é uma gracinha a ansiedade e o carinho alheios. Mas nenhuma dessas pessoas sabe qual é a cor preferida dela, a tipagem sanguínea, quantas vezes já ficou doente, a comida preferida, a música que faz dormir, as vacinas que ainda faltam, os lugares que ela gosta de cócegas e os que não gosta.

Todas essas pessoas que me olhavam fascinadas durante a gravidez tinham sim muito carinho pela minha filha. Mas nenhuma delas passava noites fazendo planos, nenhuma delas lia para a minha barriga, nenhuma delas sentia ela chutar e sorria sozinha quando o bebê soluçava no útero. Nenhuma delas passou a olhar mais antes de atravessar a rua,  parou de fumar ou simplesmente pegou na mão um exame Beta HCG quantitativo e tomou ali uma decisão de vida.

Por muito tempo eu tentei me enquadrar no ideal alheio, sem reconhecer meus próprios sentimentos, confusos, porém sinceros. Eu queria ter percebido antes que achar que não ama o suficiente já é o próprio amor.