Por uma gestação que gere o que importa

barriga-gravidezNos primeiros três meses da minha gravidez, eu fiquei paradinha. Não queria mostrar barriga, não queria fazer muito alarde, não queria começar a amar. Dentro de mim havia um medo estranho, uma sensação de que a qualquer momento eu ia perder o bebê.

Obviamente esse é um assunto complexo, tema para outro texto, mas onde quero chegar com isso: O primeiro passo que dei em direção a acreditar na maternidade foi comprar um daqueles “Livros do Bebê”. A partir dele estava oficializado, eu estava realmente me preparando para ser mãe, estava assumindo os riscos. Foi uma boa compra. Mas poderia ter sido uma das últimas.

Eu acho que a gente é pouco guiada durante a gravidez. Você está lá, com uma criança crescendo no útero. Tá, e aí? O que é que a gente faz? Dizem que a gente tem nove meses para se preparar para ser mãe. Beleza. Só não dizem como é que a gente se prepara para ser mãe.

De alguma forma é muito bom materializar a maternidade ainda durante a gestação. É bom ver que algo está sendo produzido, que as coisas estão mudando devagar. Isso ajuda a escapar da sensação de que estamos só paradas, esperando a maior reviravolta das nossas vidas começar. Mas nessa a gente cai em muita cilada.

A forma mais óbvia – e, claro, a mais induzida – de ver a gravidez se materializando é justamente: materializando. Tem berço aqui, carrinho ali, moisés de lá, bebê conforto, canguru, mamadeira, chupeta, brinquedo, roupinha de todo jeito, todo tamanho e… poxa! A gente se sente preparada para ser mãe! Um quarto separado, com cores suaves, uma decoração apropriada e parece que vai dar tudo certo. Estamos prontas para receber o nosso bebê. Tirando o fato de que não é assim que se recebe um bebê.

Eu, leiga, leiguíssima, jurava que todas essas coisas eram extremamente necessárias (parece ser, tanta loja, tanto estímulo), só não sabia como preparar a mais necessária: eu.

Não que não se precise comprar muita coisa. Filho é caro sim. Mas não tem nada que criança precise mais do que alguém para cuidar dela. E ninguém fala como é que a gente SE prepara para ser mãe. No sentido prático da coisa mesmo. Acho que muito pode partir dessa ideia de que não existe fórmula para criar filhoentão né, a gente deve saber. Mas não sabe.

A gestação precisa se voltar para dentro. Se dedicar a gerar bebê e mãe.

Porque uma mamadeira pode ser bacana, mas provavelmente será dispensável se você se preparar para amamentar. Preparar o peito, o corpo, a mente, o filtro de conselhos, ouvir as dicas, as evidências, as estatísticas. E, claro, música clássica ajuda no desenvolvimento intelectual do bebê, mas é a sua voz que vai ser como um abraço para os ouvidos. São as musiquinhas bobas que você souber cantar que vão embalar sua cria em casa, na visita aos parentes, andando na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

E o berço… mais de mil reais um berço, não é isso? Os berços deixam a gente apaixonada. Tão bonitos, tão grandes, tão representativos, tão… dispensáveis. Não importa o colchão que você comprar, nada será tão confortável para o seu bebê – e muitas vezes para você – quanto ter você ao lado dele.

slingO carrinho eu troquei por um pano de 20 reais que acalmava minha filha como mágica. A babá eletrônica que me ofereceram virou uma ida rápida a cada 15 minutos ao quarto… e depois o conhecimento do sono da minha filha… e por último um ouvido aguçadíssimo (relaxa, você também vai ter).

Precisamos tomar a gestação de volta em nossas mãos. Fazer dela um momento nosso, de aprendizado, de crescimento pessoal e de decisões.  Dá para gastar bem menos com autoconfiança e ela é bem mais útil do que aquela bolsa térmica de guardar mamadeira fria ou quente, dois compartimentos e o espaço extra para fraldas.

Precisamos nos informar. Saber sobre o nosso corpo, o nosso parto, nossos direitos, nossos desejos e… nossos filhos. Ou isso tudo é tomado de nós.

Nós somos tão importantes para os nossos filhos quanto as roupas que vestem seus corpos. Na realidade acho que bem mais mais, porque né, a técnica mamãe-canguru taí comprovando que a nossa pele na pele do bebê ajuda mais que uma encubadora.

Vamos aproveitar nossos nove meses para gerar mais mães e menos dívidas.

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Luto pós-cesárea

Conversando com algumas amigas (grávidas; mães) senti a necessidade de escrever sobre esse assunto. Baseio-me única e exclusivamente na minha experiência, então não vou me arriscar a falar sobre pós-parto, apenas pós-cesárea, que foi o que vivi (cujo relato você encontra aqui). Pode ser que quem passa por um parto sinta o mesmo, pode ser que não, inclusive, se vocês que pariram puderem comentar sobre o assunto agradeço.

Também já li por aí que o chamado baby-blues (o que talvez seja justamente esse luto do qual pretendo falar) atinge cerca de 80% das mulheres. Talvez sejam justamente as 80% que fazem cesárea no Brasil, talvez não, enfim.

O que posso dizer sobre o assunto é que o nascimento da minha filha não marcou o nascimento da mãe em mim. É claro que mesmo antes de ela nascer eu já sentia algo especial, tanto é que comecei esse blog na primeira vez que ela chutou. Eu conversava com a barriga, fazia carinho, lia, cantava para ela, ficava enlouquecida quando não mexia e brigava quando mexia demais. Eu já me pensava uma mãe, mas ainda não entendia aquela coisa sem nome que diziam que era ser mãe.

E aí eu passei por uma cesárea. E posso dizer com certeza que os primeiros dias de vida da Rita foram simplesmente os dias mais confusos, transtornados, estranhos da minha vida. Até hoje não sei nomear os milhares de sentimentos estranhos – e por vezes opostos – que eu tive naquele momento.

A priori eu simplesmente não via um ser. Não vi minha filha. Parecia que tinha algo de muito errado no mundo, eu não sabia o que era, mas as coisas estavam simplesmente erradas. Não tinha aquele êxtase de todos, não conseguia olhá-la apaixonada, achá-la linda e ficar lá, “babando”como dizem. Muito menos falar com ela, conversar. O que eu sentia, na verdade era a sensação de ter algo arrancado de mim. Parecia que eu estava amputada e queria de volta o meu pedaço tomado. Da primeira vez que levantei da cama do hospital, olhei para baixo e me vi sem barriga, desmaiei.

Também me desesperava a ideia de ir para casa. Eu não sabia trocar a fralda de um recém-nascido, as enfermeiras me ensinaram. Eu não sabia o que ia fazer quando estivesse sozinha, como ia conseguir… dar banho, trocar a roupa, fazer dormir, eu não sabia fazer nada disso. Eu me sentia bem perdida. Se eu não sabia sequer como seria a minha vida de modo prático e material, como reconhecer algum sentimento? Não sei até agora descrever o que eu pensava, eu parecia também não saber o que fazer com o que sentia. Se não sei trocar fralda como saberei ser mãe? Como me sentir mãe? Eu não conseguia sorrir direito, eu não conseguia me comunicar. Era como se eu estivesse fora do meu corpo olhando tudo o que estava acontecendo e tentando entender.

Depois de três dias no hospital fui para casa e aí começou uma outra etapa: Os sonhos. Sabem os clássicos sonhos em que as pessoas estão caindo? Eu nunca havia tido. Mas quando fui para casa tive, durante três noites seguidas eu caí… e morri. Foram sonhos diferentes, alguns tinham referência a um deus, outros a um inferno, mas o resumo era sempre o mesmo, eu caia e morria. O engraçado é que durante a minha vida não lembro de ter tido muitos sonhos com finais, parece que eu sempre acordava no meio deles, mas esses tiveram, terminavam na morte. Não morrendo… morta.

Houve um dia que eu resolvi, com ela nos meus braços cantar Aquarela para ela. E chorei. Caí em um choro desesperado que não sabia explicar. E chorei durante muito tempo. Foi um choro de quem se sentia lotada, um choro de quem está tomada por uma coisa tão grande, tão grande que precisa transbordar. O choro, com direito a soluços e dor de cabeça foi a única expressão que eu encontrei para traduzir aquele momento da minha vida. Não dava para falar, para escrever, para manifestar de nenhuma outra forma… eu precisei chorar. E por mais algum tempo foi assim. Eu tentava conversar com a Rita e chorava, olhava para ela e chorava, lembrava que ela existia e chorava.

E foi assim que por volta de sete dias após o nascimento da minha filha, eu me tornei mãe. É muito difícil que as pessoas compreendam esse nosso período melancólico e confuso, mas bem, talvez ele seja necessário. Dizem que junto com cada criança nasce uma mãe. Mas psicologicamente falando (e me corrijam psicólogos se eu estiver errada), não há como nascer alguém dentro de nós sem que outra parte morra.

Eu precisei enterrar uma parte minha para dar lugar a outra. Talvez tenha sido justamente a parte insegura, silenciosa, confusa, já que passando essa fase foi justamente quando comecei a falar, brincar, amar e a reconhecer nela outro ser: minha filha.