Minha criança incomoda muita gente

Sempre digo que minha filha é terrível. Corre, mexe em tudo o que está ao seu alcance, fala que nem uma matraca, quer pegar todos os bichinhos e, inclusive, já reiniciou esse texto duas vezes apertando o backspace e olha que acabei de começar.

Mas é claro que sempre digo isso com um sorriso no rosto. É mais para preparar as pessoas psicologicamente para as cenas descritas acima. Porque muito pior do que o fato de ela ser terrível é o seguinte: eu deixo ela ser terrível.

Pois é. Minha filha é aquela criança que sai correndo o shopping inteiro com uma mãe louca correndo atrás. Provavelmente é a criança que vai esbarrar em você, se enlaçar nas suas pernas ou parar bem na sua frente quando você estiver andando com pressa.Também é possível que ela vá até a sua mesa te incomodar e se você tiver uma criança mais velha então, prepare-se porque a Rita está pronta para dar a mão para ela e querer andar por aí. Minha filha provavelmente vai cantarolar (sim ela faz isso) ou falar alto quando você acha que não deve, ou dar risadas impróprias.

Rita é uma criança com pique. E, pior, tem uma mãe que acompanha.

“Ah, mas você precisa dar limites para a sua filha”. Exatamente. Eu preciso dar muitos limites para ela. Não posso deixar, por exemplo, ela ficar perto da janela do apartamento, nem puxar os copos de cima da mesa, nem comer todo pedaço de papel que encontra no chão. Não posso deixar ela chegar perto da rua, também não posso levá-la toda vez que saio de casa, não posso deixá-la abrir todos os armários da casa, sair correndo pelada quando está frio, entrar no banho quatro vezes ao dia (pois é, ela gosta), arranhar ou morder alguém.

Eu tenho que colocar fralda na minha filha, dar remédio ruim quando ela não quer, segurar para tomar vacina, para colocar a roupa e para completar ainda tem os momentos em que ela me pede colo e eu (hora por um motivo, hora por outro) não posso dar.

É claro que é muito fácil quem está de fora dizer que temos que dar limites. Porque as pessoas não fazem ideia de quantos limites nós realmente temos que dar. Os que são necessários, básicos para a saúde da minha filha e dos que estão ao redor dela.

Portanto, já tendo que dizer tantos não’s, eu aprendi a dizer quantos sim’s eu puder. Se eu tenho tempo e pique para correr atrás dela, por que vou ficar segurando uma criança de um ano que, assim que sai de casa, fica louca para correr pela calçada? Pode ir ser terrível, filha, que chegando perto da rua eu te pego e te redireciono para correr para o outro lado.

30122012170Eu reservo a minha filha o direito de ser terrível, de correr, de atrapalhar os meus textos, de mexer em tudo o que estiver ao alcance dela. Porque eu já precisarei dizer muitos outros não’s, ensinar muitas outras coisas. E para poder ensinar sobre o que é importante (como tratar com carinho as pessoas ao seu redor) eu preciso deixar um pouco de lado as que não são (como cantar em público).

Isso tudo quer dizer que, sim, é possível que minha filha cruze o seu caminho e atrase a sua vida em 10 segundos. Mesmo que você não goste de crianças. Mesmo que você não saiba o que fazer quando ela parar na sua frente te olhando.E, olha, eu te entendo, também não me dou bem com crianças (bomba!).

Acontece que você, adulto, tem mais tempo para perder do que ela. Claro, você tem mais prazos a cumprir e tudo o mais. Mas o tempo que ela tem para descobrir o mundo correndo sem se importar com o que os outros pensam dela é tão curto, não é? Daqui a pouco ela estará por aí, toda comedida, só acelerando o passo, igual a nós.

Ou talvez ela tenha uma filha terrível que dê a ela uma desculpa para continuar correndo.