A gente olha para o lado e cresceu

DSCN0553Sabe quando seus pais diziam que num piscar de olhos você cresceu? Então, eles só dizem isso porque… num piscar de olhos os filhos crescem.

A um mês do primeiro ano de vida de Rita eu estou aqui em uma nostalgia profunda. Porque eu não seguro mais com uma mão só, não aninho com perfeição no meu peito, não sinto mais mexendo dentro do útero, não espero horas por um sorriso, não deixo deitada estática, sabendo que ficará ali.

E não bastasse eu já estar com essa nostalgia toda, nos últimos três dias ela resolveu… crescer. Exatamente quando eu não estava olhando, ela cresceu.

Tudo começou numa noite na qual ela dormiu fora do horário. Foi uma daquelas madrugadas de neném brincando na sala e lutando contra o sono. Quando ela estava com bastante sono, levei ela para o quarto.

Parênteses: Geralmente nessas situações – quando ela está com sono, mas o mundo parece muito interessante para perder – eu deixo ela na cama sozinha, ela brinca durante um tempo e puf, apaga. Sozinha mesmo. Quando vai até a beirada da cama, ela para ali, não cai.

Pois bem: Deixei-a lá em cima da cama crente de que seria como nos outros dias. Ia cair de sono ou – caso não conseguisse – uma hora ia chorar me chamando e eu iria lá acolhe-la. Mas não foi assim. Eu a deixei e vim continuar a assistir meu filme na sala. De repente ouvi um barulho. Não era choro, não era queda, não era nenhum dos barulhos que eu estava acostumada a ouvir. Era alguém batendo na porta do quarto.

Fui até lá correndo sem entender e lá estava: De pezinha, tranquilona, batendo na porta do quarto. Desceu da cama sozinha. Cresceu.

Ficamos mais um pouco por aqui e lá pelas 2h da madrugada percebi a mesma coisa: Muito sono, porém resistindo. Fiz o mesmo que da última vez, mas dessa vez entreguei nas mãos dela o controle do ar condicionado (que sempre acaba desligado, ou sendo ligado e desligado a noite inteira, porque eu nunca acerto), já que ela adora brincar com controles. Cinco minutos e muito silêncio depois eu fui conferir como estavam as coisas.

Ela havia feito o que eu esperava: Brincou até cair de sono. Mas não só dormiu. Dormiu de bruços. Dormiu exatamente na posição que eu durmo, segurando um travesseiro (como eu seguro). Dormiu sozinha que nem gente grande. Cresceu. Não contente com isso no brincar com o controle ela havia ajustado o ar condicionado a uma temperatura absolutamente ideal. Cresceu mais do que eu.

Esse foi o primeiro capítulo. No dia seguinte eu estava na cozinha e ela foi engatinhando até o quarto no qual meu sobrinho brincava (ela é louca por ele). Deixei os dois brincando tranquilamente, quando escuto um grito “Tia Paula, vem cá!”. Fui. Chegando lá ela estava em cima da cama, brincando com os brinquedos. “Ela subiu sozinha”, o Kenzo me disse. Subiu na cama sozinha. Cresceu.

Fechando com chave de ouro, a tal insegurança que só deixava Rita andar apoiada em alguma coisa hoje foi embora. Ela não apenas deu alguns passinhos, como voltemeia fazia. Olhando nos olhos dela a gente consegue dizer que ela percebeu que anda. De repente ela se tocou que consegue. Com medo, segurando um objeto. Mas sabendo exatamente o que faz. Orgulhosa de si mesma. Cresceu.

Eu olhei para o lado e ela cresceu. É engraçado como a gente quer tanto que eles cresçam, torce tanto por esse momento no qual conseguirão – literalmente – andar com os próprios pés e na hora que fazem o coração aperta. Pula e acelera de felicidade, mas aperta. Qual será o próximo passo? Para onde será que ela vai andar? Onde é que vai subir sozinha? O que mais vai ajustar?

Nem um ano se passou e dentro da minha casa está alguém que passou de dormir o tempo todo e mamar para alguém que desce da cama, bate na porta e me recebe sorrindo. Cresceu.

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Por um amor mais café com pão

Ah, o amor romântico! Esse mito ocidental que padroniza nossas relações. Todas elas. É complicado falar desse assunto porque mexe com o âmago das pessoas. É difícil admitir que fomos condicionados a amar de determinada forma e que isso é questionável. É difícil repensar algo tão profundo quanto nossos próprios sentimentos. Mas bem, vou ter que fazer isso.

Desde o namorinho da infância até o amor materno é condicionado. O que não falta é pressão sobre o “amor de verdade”. As pessoas criam expectativas (e já falei sobre isso aqui) e testes para saber quanto vale o seu amor. Querem um amor extremo, um amor que viva sempre no limite, um amor de provas. Muito mais provas do que amor, convenhamos.

Entre as mães então, é padronizado que amamos nossos filhos desse jeito máximo. É óbvio que amamos nossos filhos mais do que tudo no mundo. Que se tivéssemos que escolher entre qualquer outra coisa (uma carreira, um romance, uma aventura) e nossos filhos optaríamos por eles. O nosso amor é medido o tempo todo. E tem que passar por esse crivo, esses testes imaginários (convenhamos, quantas vezes na vida temos que de fato fazer escolhas fatais assim?) para que seja válido. Só assim comprovamos que na maternidade encontramos o “verdadeiro significado do amor”.

De qual amor? Ora, que padronização mais chata. Como medir algo tão fluido quanto o amor? Como determiná-lo dessa maneira estagnada? Se o amor nada mais é do que uma relação entre pessoas distintas?

Para mim funciona diferente. Eu não quero esse amor materno divino, intocável e inquestionável. Eu não me identifico com essa idealização. Eu não quero amar dos extremos, não quero amar na hora da escolha. Eu não quero que seja maior que tudo, maior que eu, maior que qualquer amor de qualquer pessoa. Eu só quero que seja nosso.

O meu amor é café com pão. Esse amor que eu vejo toda vez que abro os olhos no meio da noite para te ver dormindo. O amor que acorda com você pulando na cama gritando “tatata” e responde “mas já, filha? Me deixa dormir mais um pouquinho”. Meu amor está nas músicas que eu invento para te fazer sorrir, está no meu ouvido treinado que reconhece o seu choro a distância. Meu amor é plausível, é palpável.

Esse amor de quem bate palmas juntinho a cada colherada de comida, um amor que sai encharcado da hora do banho. Amor que se abraça durante a noite, que anda de mãos dadas, que trava uma briga na hora de cortar as unhas.

O meu amor não está nos limites, não está no imaginário, no “o que eu faria se…”. O meu amor está no agora. É um amor de dia e noite, de cotidiano, de construção (e essa sou eu citando músicas do Chico Buarque compulsivamente). É um amor de pequenos sorrisos, de cócegas e carinhos.

Eu quero um amor menos padrão e mais concreto. E para isso a gente precisa colocar todo dia um tijolinho.

O fantástico da criança e eu

Eu sou uma pessoa muito chata. Acho que talvez eu sempre tenha tido medo de crianças por causa disso. Nunca soube ser legal como elas. Nunca soube como chegar, conversar, interagir com elas sobre mundos imaginários, sobre outras dimensões, sobre esses lugares, esses bichos, esses seres que as crianças conhecem tão bem e nós não.

Nunca me animei a ler Harry Potter, nem as Crônicas de Nárnia. Também não sou nada chegada em romances em geral e mesmo as histórias fantásticas que gosto, gosto pela parte lúcida delas (O Labirinto do Fauno, por exemplo).

Mas aí veio a Rita. E quem já cuidou de bebês integralmente sabe que uma coisa mágica acontece com a gente: De repente, regredimos. É como se tudo o que está ligado a nossa infância estivesse armazenado no nosso inconsciente e de repente isso vem a tona. Não que a gente passe a se lembrar, mas isso se manifesta de alguma forma. A gente consegue se comunicar mais de maneira não-verbal, olhar nos olhos da nossa criança e compreende-la, colocá-la para dormir muito provavelmente da forma que nós gostávamos de dormir quando criança.

E nesse meu retorno eu tenho descoberto uma nova forma de se ver o dia-a-dia. Primeiro me interessei surpreendentemente por uma série chamada Once Upon a Time e amei. Eu que só costumava falar comigo mesma, agora ando cantando para alguém. Canto as músicas que conheço sobre borboletas, sobre gatinhas manhosas e sobre heróis cujos cavalos agora só falavam inglês.

Ontem no meio das nossas brincadeirinhas clássicas bateu um ventinho. E movida por esse ventinho eu joguei sobre nós duas uma coberta que, por coincidência, é cheia de bolinhas coloridas. Foi aí que a mágica entrou de vez na minha vida. Eu vi então que quando quisermos podemos fazer isso: Viver sob um céu de bolinhas coloridas, onde a gente pode cantar e imitar pássaros com as nossas mãos.

Estou pouco a pouco aprendendo a olhar esse outro lado do mundo: O que simplesmente não existe. O que a gente forma juntas, montando, imaginando, viajando no conhecido até que ele não faça mais sentido algum, ficando assim do nosso jeito.

Para ajudar meu sobrinho de seis anos ainda tem me dado uma mãozinha no assunto: “Tia Paula, o que acontece se um tiranossauro rex brigar com um urso polar?” olha, eu não sei, mas pelo jeito tenho avançado (ou regredido?) a um nível de não se importar em passar horas imaginando para descobrir.

Sobre amor e comida

Eu sou uma daquelas gurias de prédio criadas a leite com pêra. Sempre tive comida na mesa, nunca tive que aprender a fazer meu próprio arroz e feijão. É claro que vez ou outra acabei fazendo minha própria janta (tudo tem limite, né!), mas essa nunca foi minha rotina obrigatória, algo no qual eu precisasse pensar.

Me arrisco então a dizer que tirando as sobremesas – nas quais mando muito bem, obrigada – e os miojos da vida, meu primeiro contato com “produção de alimento” veio com a amamentação. Mesmo não tendo que cortar nada, esquentar nada, comprar nada, quem produz sou eu. O meu corpo se encarregou de me mostrar a mágica que há alimentar alguém.

Daí que quando chegaram os seis meses de vida da minha filha eu resolvi ir para a cozinha. Tomar vergonha na cara um pouquinho né? Pois bem, fui.

Diariamente agora eu escolho os alimentos do dia, preparo a água, as panelas, corto as cascas, separo as sementes e começo ali uma das coisas mais românticas que já fiz na minha vida: O ritual de cozinhar.

Tem muito amor na cozinha. É estranho falar isso para quem nunca cozinhou, eu mesma não entendia muito bem quanta paixão podia existir entre uma mão e uma panela. Apesar de gostar de preparar um ou outro bolo para quando minha mãe chegasse do trabalho a filosofia da comida nunca tinha me alcançado, toda a minha experiência culinária havia sido muito impulsiva… até agora.

Pensar a comida é pura poesia. Quando eu cozinho para minha filha estou me declarando para ela. Não colocar sal, porque até um ano de idade não precisa, cuidar para ser tudo fresquinho, olhar a comida e pensar no corpinho dela funcionando como um reloginho.

Cada um dos legumes (btw adoro essa palavra! Não é uma delícia de falar? Le-gu-mes) que eu separo, descasco, cozinho para ela vem acompanhado de uma série de reflexões sobre quem ela é, sobre nós, sobre a minha vida, a nossa vida.

  • Beterraba porque é o que ela gosta mais, mas deixa tudo rosa, né? Depois vou ter que dar um banho. Tá tão legal o banho agora, ela bate as mãozinhas na água… tá tão crescida. Quem sabe depois do banho ela não tira uma soneca gostosa e eu aproveito para ler mais um pouco daquele livro.
  • Cenoura porque dissolve fácil e ela ainda só tem dois dentinhos na boca. Quando eu era criança comia cenoura que nem coelho… aliás, quando será que eu vou começar a fingir de coelhinho da páscoa?
  • Só as folhinhas do brócolis que é o preferido de todo mundo da casa. O Kenzo sempre gostou da “arvorezinha”. Verde no prato fica bonito né?

Tem muito amor em ver a nossa cria se nutrindo para crescer e pensar que a gente fez parte desse processo.  É como se a gente cuidasse ali de cada órgão do outro corpo, é pegar no colo e embalar pelo estômago.