Quando eu namorava com seu pai, passava muito tempo acordada. Nós dois tivemos um belo romance, inclusive, um dia te conto sobre ele. Um dia te conto sobre todos os meus romances, você provavelmente vai pensar “gente, qual a necessidade disso?”. É assim que vive sua mãe, minha filha, cheia de necessidades que não existem.

Mas voltando: Minha grande necessidade na época era ficar com seu pai. Ele trabalhava até muito tarde, enquanto eu trabalhava durante o dia. Dormia lá pelas 23h horas até as 2h, 3h e pronto, levantava para passar a noite com ele. Nós dois rodávamos a cidade, até o dia amanhecer. Eu chegava em casa, tomava um banho e ia trabalhar.

(Eu era louca, não faça esse tipo de coisa)

(Eu também espero não estar mais fazendo esse tipo de coisa quando você tiver idade o suficiente para ler isso, mas se eu estiver, por favor, não me impeça)

Foi meu treinamento. Depois que engravidei de você muita gente veio me alertar sobre as noites em claro – agradeço a essas pessoas – mas, na real, foi bem mais tranquilo do que eu esperava. Acho que eu estava preparando o meu corpo durante o tal romance.

Claro que é muito diferente. Mas se eu aguentava por romance, imagina o que não faço por amor de verdade.

Tu é meu amor de verdade, Rita.

Eu tenho te dito isso muito ultimamente. A verdade é que estou morrendo de medo. Medo de não aguentar o cansaço, as noites em claro, a febre que você teve ontem. Medo de não ser tão mãe quanto pareço, quanto preciso, quanto você merece.

Mas eu tenho aguentado, como aguentava o romance com seu pai. Feliz. Feliz e apaixonada. Eu sinto o corpo cansado enquanto te olho acordada, me pedindo comida de madrugada, e te amo. Eu me sinto maravilhosa por estar cansada. Afinal, se você é a razão do meu cansaço, esse cansaço é maravilhoso. E eu o quero sempre comigo.

Eu te quero sempre comigo, Rita.

Claro que meu medo sempre pode se tornar realidade e eu acabar não dando conta de mim mesma, do meu corpo, da minha fadiga, dos meus sentimentos. Rola. As vezes rola. Vai rolar. Mas quanto mais eu puder, calma e tranquilamente fazer de mim teu ponto de paz quando você está nervosa, ao invés de tomar teu nervosismo como parte minha, eu vou. Eu vou direcionar todas as minhas forças para isso. Eu vou ser minha melhor parte para você.

(E aqui aviso, talvez minha melhor parte não seja tão boa assim, mas talvez seja o bastante para você, que já é tanto por si só)

Os dias tem sido mais difíceis, tu bem sabes. Tu finges que não, acho que para não me preocupar, mas não tenho dúvidas de que saibas. Nós estamos aguentando. Com a pouca estrutura – em todos os sentidos – que temos, nós estamos aguentando.

(Claro que é mais normal que você, aos dois anos, não tenha estrutura do que eu, aos 23, hahaha)

E estamos aguentando como aguentamos nossos romances, nossas mudanças e tudo o que nos dá, simultaneamente, prazer, cansaço e medo: Felizes. Mais que isso, estamos aguentando felizes, juntas. Não estamos sozinhas. Nunca estivemos. Nunca mais estaremos. Temos uma a outra.

Eu te amo, Rita.

Vamos em frente.

Anúncios

Carta aberta no seu mês de aniversário

Querida filha…

Ainda que me encante a felicidade de fevereiro e o clima de outubro, para mim nada se compara a Dezembro. O último mês do ano me deixa completamente apaixonada e você provavelmente vai reparar que em Dezembro eu tenho o costume de olhar para o céu, sorrir sem motivo e ter algumas ideias estúpidas como dançar no meio da rua.

Para completar Dezembro ainda tem você. Em um dia 28 de Dezembro você chegou. Porque não basta que duas das minhas festas favoritas fiquem a apenas uma semana de distância uma da outra, para completar no meio tinha que ter você. Mais um motivo para comemorar, mais uma desculpa para reunir todo mundo que a gente gosta, mais uma razão para eu enlouquecer de correria e felicidade.

Eu nem sei se a sua objetividade capricorniana te permitirá ver com os olhos de mágica que eu vejo Dezembro – embora, coincidência ou não, a maioria dos capricornianos que eu conheço se permitam ficar mais emocionais nessa época do ano – mas de qualquer forma, seu ascendente em Peixes está aí para te deixar mais avoada, esperançosa, viajada.

Eu espero, então, que você consiga ver realmente os presentes que irá ganhar nessa época do ano. Dezembro vai te trazer muito mais do que um natal, um aniversário e um ano novo para fechar com chave de ouro.

Todo ano Dezembro vai te dar calor e a princípio umas boas férias. Dezembro vai te trazer cheiro de frutas frescas, gosto de panetone e uma energia de renovação gostosa. Dezembro tem a capacidade de nos deixar saudosistas, nostálgicas, melancólicas e simultaneamente esperançosas, planejadoras.

No mês do seu aniversário você sempre vai ganhar umas apresentações pela cidade e a possibilidade de ver gente feliz por aí. Vai ganhar  um dia maior, umas crianças na rua até tarde, umas luzes espalhadas pela cidade e umas músicas repetitivas que grudam na nossa cabeça. De presente para você a vida vai ficar toda brilhosa, vermelha e dourada, mas dentro da sua casa você pode colocar as cores que quiser.

Os sorrisos dos desconhecidos de Dezembro vão te fazer querer sorrir também. E se você quiser dar uma passadinha pela rodoviária nessa época do ano vai ver tanta saudade expressa em abraços que vai querer expressar também. Dezembro vai te dar piadas de pavê, apertões de bochechas e gente dizendo como você cresceu, o que vai ser bem irritante, mas sei que você conseguirá ver o carinho por trás desses atos.

E se tudo der certo, no último mês do ano você também terá uma mãe correndo feito louca dentro de casa, arrumando as uvas e os pêssegos em cestas para a ceia de natal e te ensinando a cortar a melancia em ziguezague e fazer bolinhas com o miolo dela. Vai me pedir um bolo para adoçar o dia 28 e no dia trinta e um vai me ouvir dizendo o quanto eu quero que todos os seus sonhos se realizem… no ano que vai chegar.

Provavelmente no meio de tudo isso você vai rir de mim e dizer o quanto eu sou clichê ou então vai vir junto comigo e se empolgar bobagem toda. Nos dois casos eu prometo te responder com um abraço bem apertado e um cheirinho no pescoço.

Se ainda assim você em um ano ou outro tiver um fim de ano meia boca, a gente se esforça para compensá-lo durante todos os outros meses do ano, pode ser?

Feliz Dezembro para você.

Por um amor mais café com pão

Ah, o amor romântico! Esse mito ocidental que padroniza nossas relações. Todas elas. É complicado falar desse assunto porque mexe com o âmago das pessoas. É difícil admitir que fomos condicionados a amar de determinada forma e que isso é questionável. É difícil repensar algo tão profundo quanto nossos próprios sentimentos. Mas bem, vou ter que fazer isso.

Desde o namorinho da infância até o amor materno é condicionado. O que não falta é pressão sobre o “amor de verdade”. As pessoas criam expectativas (e já falei sobre isso aqui) e testes para saber quanto vale o seu amor. Querem um amor extremo, um amor que viva sempre no limite, um amor de provas. Muito mais provas do que amor, convenhamos.

Entre as mães então, é padronizado que amamos nossos filhos desse jeito máximo. É óbvio que amamos nossos filhos mais do que tudo no mundo. Que se tivéssemos que escolher entre qualquer outra coisa (uma carreira, um romance, uma aventura) e nossos filhos optaríamos por eles. O nosso amor é medido o tempo todo. E tem que passar por esse crivo, esses testes imaginários (convenhamos, quantas vezes na vida temos que de fato fazer escolhas fatais assim?) para que seja válido. Só assim comprovamos que na maternidade encontramos o “verdadeiro significado do amor”.

De qual amor? Ora, que padronização mais chata. Como medir algo tão fluido quanto o amor? Como determiná-lo dessa maneira estagnada? Se o amor nada mais é do que uma relação entre pessoas distintas?

Para mim funciona diferente. Eu não quero esse amor materno divino, intocável e inquestionável. Eu não me identifico com essa idealização. Eu não quero amar dos extremos, não quero amar na hora da escolha. Eu não quero que seja maior que tudo, maior que eu, maior que qualquer amor de qualquer pessoa. Eu só quero que seja nosso.

O meu amor é café com pão. Esse amor que eu vejo toda vez que abro os olhos no meio da noite para te ver dormindo. O amor que acorda com você pulando na cama gritando “tatata” e responde “mas já, filha? Me deixa dormir mais um pouquinho”. Meu amor está nas músicas que eu invento para te fazer sorrir, está no meu ouvido treinado que reconhece o seu choro a distância. Meu amor é plausível, é palpável.

Esse amor de quem bate palmas juntinho a cada colherada de comida, um amor que sai encharcado da hora do banho. Amor que se abraça durante a noite, que anda de mãos dadas, que trava uma briga na hora de cortar as unhas.

O meu amor não está nos limites, não está no imaginário, no “o que eu faria se…”. O meu amor está no agora. É um amor de dia e noite, de cotidiano, de construção (e essa sou eu citando músicas do Chico Buarque compulsivamente). É um amor de pequenos sorrisos, de cócegas e carinhos.

Eu quero um amor menos padrão e mais concreto. E para isso a gente precisa colocar todo dia um tijolinho.

A receita de bolo ou sobre mães melhores e piores

Dizem que não há receita para criar filho. De fato, não há. Eu discordo dos que acreditam que ser pai ou mãe deveria vir com cursinho prévio etc. Também aprendi pouco nos tais grandes livros do bebê que prometem nos dizer passo a passo como lhe dar.

Dizem também que, apesar de cada mãe ser diferente, mãe é tudo igual. Mãe sempre procura fazer o melhor para os seus filhos. Mãe pode errar, mas é sempre tentando acertar. Mãe só muda de endereço. É engraçado notar como existe até um certo sexismo nisso, afinal, voltemeia a gente escuta que Fulano é um “bom pai” ou o contrário. Mas as mães foram retiradas do seu patamar de humanas e não podem ser boas ou ruins, são todas iguais.

Pois, sinto muito, mas eu acho sim que existam mães melhores e mães piores. Ser mãe é simultaneamente estabelecer um relacionamento e exercer uma função (aliás, arrisco dizer que em todo relacionamento exercemos uma função, perdoem-me a falta de romantismo). E a forma como exercemos essa função está sim em cheque, pode sim ser avaliada e reavalidada (de preferência por nós mesmas).

Espera, para. Não estou dizendo que exista uma forma exata para se criar os filhos no sentido prático da coisa. Não existe uma forma exata de colocar para dormir, de dar banho, de agir quando a criança morde, quando faz birra, não existe uma música certa para cantar. Como eu já disse, ser mãe é estabelecer um relacionamento com outro ser e é claro que pessoas diferentes vão estabelecer relações diferentes.

Mas é justamente nisso que está a grande palavra-chave do que estou querendo dizer: Pessoas. Crianças são pessoas, sim, lidem com isso. E como tais merecem ser respeitadas, compreendidas como seres humanos, sabe? Existem mães melhores ou piores porque a relação mãe-filhx é (pasmem!) uma relação a dois. E o outro participante que não a mãe é tão importante quanto ela.

Parênteses: Nesse final de semana conheci uma mulher que me disse que a criança, que se tratava de um bebê de oito meses, era terrível, uma peste. Ao ouvir as ações do bebê terror percebi que: eram exatamente as mesmas da minha filha. Sabe, se apoiar em tudo, por na boca o que não deve, puxar o rabo do cachorro etc. Depois disso, vi o menininho estendendo a mão para pegar uma folha (o horror, o horror) e levando um tapa no braço. Saí de perto.

Voltando: O que quero dizer é que as mães não estão acima do bem e do mal. Existem sim, mães melhores e mães piores. Eu que não bato no braço da minha filha quando ela vai pegar alguma coisa do chão, sou melhor que muita mãe e as muitas mães que além de não baterem nos braços de suas crianças não gritam quando ficam nervosas (como eu faço) são melhores do que eu.

Porque pode não haver uma receita de bolo, pode ser que ninguém tenha os ingredientes certos para criar um filho, mas o modo de fazer está bem claro: Quanto mais se encara a criança como um ser humano, valorizando sua personalidade, permitindo suas escolhas, compreendendo-a como um ser único com instintos, desejos e entendimentos únicos, enfim, vendo-a como outra pessoa, não como uma extensão ou um objeto, mais perto se chega de ser uma mãe melhor.

E embora seja óbvio, reitero: Isso não significa que se deva fazer tudo o que a criança quer, tenho certeza que você respeita muitas pessoas como seres humanos e não necessariamente faz tudo o que elas querem.

O que quero dizer é que a máxima: “É meu filho e eu vou fazer do meu jeito” não é válida. Existem evidências, pesquisas, estudos que estão a favor de todas as mães e, principalmente, de todas as crianças. Existem sim algumas “fórmulas”, não como “aqueça a água a exatos 35 graus” mas como: amor, cuidado, atenção e carinho são sempre mais eficientes do que tapas. Nosso filho não é nosso, é dele mesmo e a maneira de ser uma mãe a altura de nossos filhos é nos esforçando não para fazermos apenas do nosso jeito, mas sim do nosso melhor jeito (e que nesse “nosso” estejam inclusas todas as pessoas da relação).

Luto pós-cesárea

Conversando com algumas amigas (grávidas; mães) senti a necessidade de escrever sobre esse assunto. Baseio-me única e exclusivamente na minha experiência, então não vou me arriscar a falar sobre pós-parto, apenas pós-cesárea, que foi o que vivi (cujo relato você encontra aqui). Pode ser que quem passa por um parto sinta o mesmo, pode ser que não, inclusive, se vocês que pariram puderem comentar sobre o assunto agradeço.

Também já li por aí que o chamado baby-blues (o que talvez seja justamente esse luto do qual pretendo falar) atinge cerca de 80% das mulheres. Talvez sejam justamente as 80% que fazem cesárea no Brasil, talvez não, enfim.

O que posso dizer sobre o assunto é que o nascimento da minha filha não marcou o nascimento da mãe em mim. É claro que mesmo antes de ela nascer eu já sentia algo especial, tanto é que comecei esse blog na primeira vez que ela chutou. Eu conversava com a barriga, fazia carinho, lia, cantava para ela, ficava enlouquecida quando não mexia e brigava quando mexia demais. Eu já me pensava uma mãe, mas ainda não entendia aquela coisa sem nome que diziam que era ser mãe.

E aí eu passei por uma cesárea. E posso dizer com certeza que os primeiros dias de vida da Rita foram simplesmente os dias mais confusos, transtornados, estranhos da minha vida. Até hoje não sei nomear os milhares de sentimentos estranhos – e por vezes opostos – que eu tive naquele momento.

A priori eu simplesmente não via um ser. Não vi minha filha. Parecia que tinha algo de muito errado no mundo, eu não sabia o que era, mas as coisas estavam simplesmente erradas. Não tinha aquele êxtase de todos, não conseguia olhá-la apaixonada, achá-la linda e ficar lá, “babando”como dizem. Muito menos falar com ela, conversar. O que eu sentia, na verdade era a sensação de ter algo arrancado de mim. Parecia que eu estava amputada e queria de volta o meu pedaço tomado. Da primeira vez que levantei da cama do hospital, olhei para baixo e me vi sem barriga, desmaiei.

Também me desesperava a ideia de ir para casa. Eu não sabia trocar a fralda de um recém-nascido, as enfermeiras me ensinaram. Eu não sabia o que ia fazer quando estivesse sozinha, como ia conseguir… dar banho, trocar a roupa, fazer dormir, eu não sabia fazer nada disso. Eu me sentia bem perdida. Se eu não sabia sequer como seria a minha vida de modo prático e material, como reconhecer algum sentimento? Não sei até agora descrever o que eu pensava, eu parecia também não saber o que fazer com o que sentia. Se não sei trocar fralda como saberei ser mãe? Como me sentir mãe? Eu não conseguia sorrir direito, eu não conseguia me comunicar. Era como se eu estivesse fora do meu corpo olhando tudo o que estava acontecendo e tentando entender.

Depois de três dias no hospital fui para casa e aí começou uma outra etapa: Os sonhos. Sabem os clássicos sonhos em que as pessoas estão caindo? Eu nunca havia tido. Mas quando fui para casa tive, durante três noites seguidas eu caí… e morri. Foram sonhos diferentes, alguns tinham referência a um deus, outros a um inferno, mas o resumo era sempre o mesmo, eu caia e morria. O engraçado é que durante a minha vida não lembro de ter tido muitos sonhos com finais, parece que eu sempre acordava no meio deles, mas esses tiveram, terminavam na morte. Não morrendo… morta.

Houve um dia que eu resolvi, com ela nos meus braços cantar Aquarela para ela. E chorei. Caí em um choro desesperado que não sabia explicar. E chorei durante muito tempo. Foi um choro de quem se sentia lotada, um choro de quem está tomada por uma coisa tão grande, tão grande que precisa transbordar. O choro, com direito a soluços e dor de cabeça foi a única expressão que eu encontrei para traduzir aquele momento da minha vida. Não dava para falar, para escrever, para manifestar de nenhuma outra forma… eu precisei chorar. E por mais algum tempo foi assim. Eu tentava conversar com a Rita e chorava, olhava para ela e chorava, lembrava que ela existia e chorava.

E foi assim que por volta de sete dias após o nascimento da minha filha, eu me tornei mãe. É muito difícil que as pessoas compreendam esse nosso período melancólico e confuso, mas bem, talvez ele seja necessário. Dizem que junto com cada criança nasce uma mãe. Mas psicologicamente falando (e me corrijam psicólogos se eu estiver errada), não há como nascer alguém dentro de nós sem que outra parte morra.

Eu precisei enterrar uma parte minha para dar lugar a outra. Talvez tenha sido justamente a parte insegura, silenciosa, confusa, já que passando essa fase foi justamente quando comecei a falar, brincar, amar e a reconhecer nela outro ser: minha filha.

Eu, que não te amava o bastante.

5 meses de barriga

A gravidez foi um período muito complexo e perturbado para mim. Foi por isso, inclusive, que fiquei um bom tempo sem escrever aqui. Era tudo muito confuso e assustador na minha cabeça e só hoje, depois de passada a tempestade eu consigo olhar para trás e enxergar com naturalidade o medo e os tabus que me assolaram.

Eu acredito que uma das frases mais difíceis de lidar (e que não deixava a minha cabeça um instante) era: Eu acho que não amo minha filha tanto quanto deveria.

Todo mundo me olhava com aquele brilho no olhar, aquela cobrança, aquele frisson como se quisessem me ver o tempo todo sorrindo e acariciando a barriga.  Bom, eu não estava. Eu havia decidido levar minha gravidez adiante, estava me sentindo bem com essa decisão, gostava de estudar sobre, de fazer planos para o bebê, mas… não amava como deveria. Não estava ansiosa, não pensava que o dia do nascimento dela seria o mais feliz da minha vida e não passava horas sonhando em como a vida seria completa com ela ao meu lado. Não tinha o brilho nos olhos que esperavam de mim.

A culpa me corroía. Eu pensava que então, já que não amava, devia ter era desistido da gravidez lá no começo. Me imaginava passando anos fingindo amá-la, fingindo me preocupar, quando na verdade não me sentia bem com isso. Era muito duro ver todos em volta parecendo tão melhores do que eu frente a minha própria vida.

Um dia fui conversar com a minha mãe (sempre essa linda) sobre isso e ela me contou que já sentiu o mesmo. Na gravidez dela teve um diálogo mental consigo mesma pensando “está tudo tão difícil, eu não queria estar grávida”… logo em seguida pensou “não, eu não posso pensar esse tipo de coisa porque se não o bebê sente” e finalizou com “mas que bosta, eu não posso nem PENSAR o que eu quiser por causa desse bebê!”. E é mais ou menos assim mesmo, a gente se sente culpada até pelo que pensa, pelo que sente, pelo que nem ao nosso alcance está.

Esse tal “amar tanto quanto deveria” é um ideal impossível de ser alcançado. A figura da Virgem Maria continua tão presente no imaginário popular que continuamos a nos sentir culpadas, continuamos sendo julgadas com base em sentimentos imaginários presentes mais nos outros do que em nós mesmas. Nunca seremos mães o suficiente para essa utopia.

Depois que a Rita nasceu essa cobrança continuou a estar presente na minha vida. “Mas você não se sente culpada saindo a noite enquanto sua filha está em casa?” Não. “Ai, mas você confia em outras pessoas para cuidar dela?” Sim. “Nossa, mas você deixa os outros pegarem ela? Não é muito difícil ver sua filha em outro colo?” Não.

Hoje eu sei exatamente a relação que tenho com a minha filha, eu sei que a conheço como nenhuma dessas pessoas com cobranças e brilho nos olhos conhece.

Porque é uma gracinha a ansiedade e o carinho alheios. Mas nenhuma dessas pessoas sabe qual é a cor preferida dela, a tipagem sanguínea, quantas vezes já ficou doente, a comida preferida, a música que faz dormir, as vacinas que ainda faltam, os lugares que ela gosta de cócegas e os que não gosta.

Todas essas pessoas que me olhavam fascinadas durante a gravidez tinham sim muito carinho pela minha filha. Mas nenhuma delas passava noites fazendo planos, nenhuma delas lia para a minha barriga, nenhuma delas sentia ela chutar e sorria sozinha quando o bebê soluçava no útero. Nenhuma delas passou a olhar mais antes de atravessar a rua,  parou de fumar ou simplesmente pegou na mão um exame Beta HCG quantitativo e tomou ali uma decisão de vida.

Por muito tempo eu tentei me enquadrar no ideal alheio, sem reconhecer meus próprios sentimentos, confusos, porém sinceros. Eu queria ter percebido antes que achar que não ama o suficiente já é o próprio amor.

Breast is Best – Parte II

Amamentação e Empoderamento Feminino

A lactação foi uma grande surpresa para mim. Claro que eu já conhecia o básico da história, mas tinha uma visão muito superficial e simplista da coisa. O bebê nasce, a gente amamenta e é isso aí. E talvez para muita gente seja assim mesmo, mas para mim não foi.

Eu fico tentando buscar outra palavra para definir amamentação, mas até hoje nenhuma coube melhor do que essa: Poder. Amamentar faz com que eu me sinta absolutamente poderosa, como nunca me senti na vida. É um dos sentimentos mais fortes, agressivos, absolutos que já senti.

A lactação nos leva a um estágio muito primário e selvagem da nossa existência. Afinal a gente é sempre tão cercado por regras e compreensões humanas que chega a ser assustador percebermos que, no final das contas, não importa o que a gente faça, ainda somos mamíferos. Minha filha caçando o peito me lembrou muito os cachorrinhos que tantas vezes vi nesse processo de amamentação.

A questão que mais me deixou fascinada foi essa sensação de ser primordial. Fonte de vida no sentido mais visceral possível. E pode chamar de arrogante o quanto quiser, mas eu me sinto na base, no princípio de tudo. Afinal, tudo o que existe por mãos de homem ou mulher qualquer, teve uma mãe amamentando por trás (costumo dizer que inclusive o leite industrializado só existe porque alguém amamentou uma criança que cresceu e o inventou). A lactação me trouxe essa sensação de ser provedora, criadora.

É muito forte pensar essa capacidade materna de produzir o alimento do próprio filho. Uma mãe que amamenta está inconscientemente negando a posição de frágil, vulnerável e dependente que é imposta a mulher por uma sociedade machista. Somos tão grandes que não precisamos dessa indústria terceirizada e masculina para alimentar nossos filhos. Somos capazes de fazer sozinhas.

O ato de amamentar é expressão do poder materno e acho que, talvez por isso, a sociedade reaja de forma assustada a questão. Não é apenas a superotização e o controle do corpo feminino. Uma mulher que amamenta em público está lembrando a todos que a imagem de uma mãe não é a de virgem Maria, está muito mais para uma leoa, uma cachorra, uma loba. Alguém que tem em si força e independência grandiosas o bastante para prover sua cria em sua necessidade mais básica e instintiva como animal ser humano.

Propor a industrialização do alimento do bebê é tirar da mulher essa força  que nos é inerente e de direito. Quem propõe que não amamentemos com nosso próprio seio quer nos tirar a vantagem de estar além de qualquer possibilidade material de produção já inventada. Quer nos enfraquecer.

Eu digo sempre que amamentação é vida. E é. No sentido mais literal e visceral que a palavra “vida” pode ter.