Eu já escuto os teus sinais

Tu vens. E eu só não digo que sinto a maior angústia de minha vida porque há um mês tenho me deitado sem você todas as noites. Isso sim é angustiante. O que eu sinto agora está mais para uma das maiores crises de ansiedade que já tive.

Tem gente que não come. Mamãe não dorme. Você vai perceber ao longo da vida que mamãe não consegue dormir quando está muito ansiosa. E passa mal. Mas aí é só em casos muito extremos mesmo. Não passei mal quando fui me mudar de cidade, por exemplo. Mas sabendo que daqui a algumas horas vou te ver, estou passando mal.

Tu vens. E eu quero terminar de arrumar a casa para você. Mas isso significa pensar em você pisando aqui dentro e aí eu passo mal. Porque não consigo sequer imaginar. Porque não vejo a hora. Porque estou com medo de como vai ser te ver.

Eu tenho um medo muito grande de você não se lembrar de mim. Ontem a vovó me contou que você ficou dizendo “quero ir mamãe”. Hahahaha. Eu tenho um medo maior ainda de você se lembrar de mim. E de ter sofrido esse tempo longe de mim.

Eu sei, porque lembro de você. E sofro longe de você.

Tu vens. Hoje o dia vai ser diferente. Hoje vai ser exatamente o dia que eu quero viver todos os dias para o resto da minha vida. Eu, você, essa cidade.

Tu vem chegando pra brincar no meu quintal <3

Ao meu bebê capricorniano

Minha amada…

O final do ano vai chegando e com ele vem minha vontade de te escrever. Ao longo do tempo te vejo crescendo e, a beira de completar dois anos de idade, sinto a necessidade de falar sobre esse seu crescimento. Sobre quem fomos juntas nos últimos dias, semanas, anos (agora no plural).

Os amigos que, como eu, se interessam por astrologia, compreendem. Sempre que vou te descrever o diálogo é o mesmo.

– Pois é, minha filha é capricorniana, então…
– Ela nasceu adulta.
– Exato.

Confissão: Tenho medo de um dia ter que cuidar de um bebê de verdade. Que não saiba pegar o próprio potinho toda vez que ofereço frutas. Que não peça para escovar os dentes, não saia fechando os armários, não peça para pentear meus cabelos. Um bebê que seja realmente um bebê.

Eu amo te chamar de meu bebê. Meu neném. Minha filha, minha Rita. Amo a honra que você me dá quando me chama de “mamãe”. Amo esse título. Me sinto nomeada, homenageada cada vez que essa palavra sai da sua boca.

Simultaneamente acho incrível a sua capacidade de me lembrar que há muito ultrapassamos isso. Você não é apenas meu bebê. Não sou apenas sua mãe.

Essa semana fomos no parquinho. Te coloquei no balanço, no gira-gira, segurei sua mão para você andar em cima do banco. Briquei com você como uma mãe brinca com um bebê. Cada uma de nós exercendo nosso pré-determinado papel corretamente, tal como manda o figurino. Por pouco tempo.

“Senta mamãe”. Sentei. Primeiro no gira-gira. Depois no balanço. Você ama essa inversão de papéis. Me girou, me balançou, rindo até. Clássico bebê capricorniano.

Depois você me colocou em um balanço e sentou-se no balanço ao lado. Balançamos juntas. Sentou-se ao meu lado no gira-gira e giramos juntas. Segurou minha mão. Corremos juntas. Uma ao lado da outra. Como é a  nossa vida. Como tudo deve ser.

Desde que você nasceu vivemos um constante passeio ao parquinho: Eu cuido de você, você me cuida e,  por fim, estamos uma ao lado da outra. Caminhando juntas, de mãos dadas. Você é minha parceira, minha companheira.

Diante de tudo o que passamos, no final é só isso. Somos nós. Unidas, construindo tijolinho por tijolinho tudo o que nos envolve. Nosso lar, nosso caminho, nossa história. Somos aliadas. Por vezes eu tomo a frente, te balanço. E tem dias que quem assume a liderança é você, me gira.

Tudo isso para equilibrar. Para ficarmos lado a lado.

Não sei se você sabe, mas dizem por aí que sozinho se vai mais rápido, mas acompanhado se vai mais longe.

Vamos em frente, minha querida.

Com amor, mamãe.

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O mamá vai, o tetê fica

Aniversário de 1 ano: Da Rita e do mamá.

Eu já escrevi muito aqui sobre peito. Peito e amor, peito e força, peito e vínculo, peito e saúde. Peito é uma coisa fantástica. Inclusive, recentemente li esse post e recomendo-o altamente para todos vocês.

Pois bem, vamos falar sobre o tão temido desmame. Aqui, chegou cedo. Muito mais cedo do que eu esperava. Há um mês atrás, com um ano e cinco meses de idade, Rita parou de mamar. Não cumpriu nem a meta recomendada pela OMS que é de no mínimo dois anos. E como eu havia dito que contaria para vocês quando esse dia chegasse, cá estou eu.

Durante o primeiro ano de vida da Rita eu parei de estudar e trabalhar. Tirei um ano só para ficar com ela e foi a melhor coisa que eu fiz. Por diversos motivos, mas o que quero ressaltar aqui foi o de amamentar, realmente, em livre demanda. Sempre.

Dizem que esse tipo de amamentação só deve durar até os seis meses. Então desculpem se eu fiz errado (porém foda-se), mas durante esse ano todinho não neguei o peito para minha menina nem uma vez. Mesmo já comendo, almoçando, jantando e querendo frutas o tempo inteiro, o peito continuo a ser o principal alimento (e o maior apego) da vida da Rita.

Este ano as coisas mudaram um tanto quanto drasticamente.  Logo no começo voltei a trabalhar o dia todo e estudar a noite. Ela já não podia mamar com a mesma frequencia. Por sorte a apresentação aos alimentos da Rita foi muito boa. Ela come muito bem. Não passou fome, não teve problemas nutricionais e não precisou de nenhum desses suplementos como NAN, Ninho e etc.

Voltando ao peito, ela passou a mamar apenas nos dois horários que estávamos juntas: De manhã e durante a noite. Era muito especial chegar da aula, pegá-la no colo e ver ela mamar e dormir quase que automaticamente. Como quem só está esperando ali, seu conforto, sua fonte de vida para conseguir descansar tranquila.

Mas as coisas foram mudando ainda mais. Ela passou a dormir a noite inteira ou, quando acordava, não pedia mais o peito, queria apenas ficar brincando. Pronto, Rita mamava apenas duas vezes ao dia. Além disso passamos a ficar mais tempo separadas. Eu deixei ela passar alguns finais de semana fora, na casa da avó e viajei outros também. O leite foi secando.

Até que chegou um ponto em que não tinha quase mais nada. Rita colocava a boca no peito, sugava, olhava para mim e ria. Em menos de dois minutinhos já largava, porque realmente não havia o que sugar. Aí entrou minha participação na história: Não estava confortável aquela situação de dar o peito sem leite para uma criança não mamar. Mas eu não queria simplesmente negar. Passei a sugerir opções.

Falei para ela: Mamar não Rita, não tem leite. Deita aqui no tetê, faz carinho. E foi o que ela fez.

Acho que precisei falar umas quatro vezes e nunca mais. Rita realmente devia estar achando trabalhoso sugar e não ver leite. Nunca mais pediu para mamar.

Mas ela e o tetê ainda são parceiros. Ela deita no meu peito, faz carinho e ás vezes puxa a minha blusa e fica sorrindo só olhando para o peito. Sei lá, deve ser nostalgia do que passaram juntos ou felicidade em constatar que, ok, ainda está ali.

Dá saudade? Dá. Em mim e nela.  Mas tô achando interessante a gente ir descobrindo outras formas de nutrir e de demonstrar afeto. O que mais me encantava no peito era isso: Amor pronto. Amor instantâneo, sem erro. Era Rita mamar e a gente entrava em um universo paralelo, produzido pelo contato direto dos nossos corpos, pelo meu corpo alimentando o dela, pelo encontro. Era uma sensação de plenitude (sério, leiam o texto que indiquei no começo).

Agora a gente vai construindo diferente. Precisa de mais abraço, mais beijo, mais cócegas, mais corpo a corpo, mais ela deitada na minha barriga e, sim, com a mão no meu peito. Porque por mais que a amamentação não esteja mais ali, o peito continua sendo simbólico. Continua representando todo amor e nutrição que tivemos no começo, continua sendo uma ligação muito forte entre nós.

E esse laço não precisa secar com o leite.

The greatest thing you’ll ever learn

…Is just to love and be loved in return.

Uma das primeiras verdades que ouvimos na vida é sobre o amor dos nossos pais. Eles nos amam. Pode vir da boca deles ou da dos outros, mas todo mundo concorda “sua mãe só faz isso porque ela te ama”.

Não vou nem entrar na questão do quanto esse tal amor fraternal é questionável enquanto natural. Nem no quanto é problemática essa visão do amor como uma justificativa sempre plausível e inviolável. Vou falar sobre uma epifania que me aconteceu recentemente.

Então eu amo a minha filha. E essa é a primeira coisa que ela vai saber sobre mim. E eu serei a primeira pessoa com quem ela terá algum contato sobre o amor. Como eu ainda não havia notado o tamanho dessa responsabilidade? Eu sou a base do que ela entenderá por amor. Sendo amada por mim é que ela começará aprender a amar.

Desde que ela nasceu a primeira consciência que tive sobre isso foi a da fala. Falar eu te amo não costuma ser fácil. Especialmente quando a gente ama de verdade. E mais especialmente ainda quando ama diariamente, 24h por dia, quando ama com raiva, quando ama cuidando, se esforçando, trabalhando. Quando se ama cansada, com rotina, com costume, se ama muito e se fala pouco. Então eu forço a memória e a garganta. Eu quero dizer eu te amo como se diz bom dia.

Também quero que tudo esteja alinhado. Ora, se vou dizer para minha filha que a amo é importante que essas palavras venham bem ilustradas com a nossa vida. Se a palavra amor – bem como todas as outras – por enquanto não tem significado algum para ela, sou eu que vou significar. E, atualmente, a melhor maneira que encontrei de fazer isso foi mostrando para ela o melhor do amor que há em mim.

Por isso eu tenho me esforçado (sim gente, é esforço, dá trabalho). Todo dia tenho procurado fazer as palavras “eu te amo” saírem da minha boca bem acompanhadas. De mãos dadas com mais calma, paciência, atenção, carinho, cuidado, confiança.

Todo dia eu decidi cantar antes de ela dormir. Demora mais, mas ela fica mais calma. Decidi que todo dia de manhã terá sessão de beijinhos e que eu não preciso levantar correndo, com pressa de viver. Dá para ganhar meia hora fazendo cócegas na barriga da minha filha para ela acordar sorrindo. Decidi que não preciso otimizar o tempo tanto assim. Que tem momentos que são só dela e não há outro afazer no mundo que mereça dividir isso conosco.

Decidi aprender a brincar mais, contar mais histórias, cantar mais músicas, dançar mais pela casa e respirar mais até dez. Decidi que preciso trabalhar quem eu sou e o que tenho de bom dentro de mim, para consequentemente despertar o que tem de bom dentro dela.

E há sim uma parte muito bonita nisso, porque quero que todas essas coisas boas influenciem na forma que ela vai amar os outros.

Mas há outra parte que é ainda mais bonita. Eu preciso me esforçar para entregar o melhor amor que há em mim porque essa é a forma de minha filha perceber exatamente qual o tipo de amor que ela merece. Para que ela conheça o amor bom como a única forma aceitável de amor. Para que o amor possessivo, violento, opressor – o amor que agride sob a justificativa dele próprio – não se apresente para ela antes de mim e a torne refém dele.

Bem como não faça dela uma cúmplice.

E, sabe, quando me toquei disso tudo, concluí que: Acho que essa é uma boa forma de começar a mudar o mundo.

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Um ano, um abraço e uma pitada de orgulho

Esse vai ser um post egocêntrico. Bem egocêntrico mesmo. Aliás, já ouvi muita gente dizendo que se tornar mãe ou pai é uma das coisas mais egocêntricas que a gente pode fazer. Não discordo.

Já no final do ano passado comecei a me preparar para voltar ao mundo, do qual eu tinha ficado escondida durante o último ano todo. Trabalho, faculdade, mil e um projetos me aguardando lá fora depois de eu ter por tantos dias me dedicado exclusivamente a um: Rita.

Nesse movimento é muito fácil a gente se culpar. Temer. E agora? Como ela vai ficar longe de mim? Como eu vou ficar longe dela? E se a gente se afastar? E se ela não for mais tão próxima assim de mim? E se dentro de um ano me perguntarem quem é minha filha e eu não souber responder direito como sei hoje? Pois é. Muita paranoia para pouca pessoa, mas o nome disso é ser humano.

Em retrospectiva eu percebi naturalmente o quanto 2012: O Ano da Maternidade havia me feito bem. E não entendam mal, não foram só flores por aqui. Teve surto, choro, sangue, suor, gritos e mil e uma crises (que minhas queridas MqNSP acompanharam de perto) bem difíceis de lidar. Mas o saldo foi positivo. No final disso tudo eu sinto que fiz exatamente o que queria ter feito, o que estava pronta para fazer e, sem dúvidas, tudo o que estava ao meu alcance.

Agora estava difícil eu enxergar o outro lado da moeda. Fiquei tanto tempo pensando em como seria ficar longe dela que não conseguia focar no quão perto dela eu estive todo esse tempo. Até que recentemente ela começou a abraçar. E ontem, quando cheguei do meu primeiro dia de aula, foi o que ela fez. Veio correndo, sorrindo, me abraçou forte e não soltou mais.

Como quem sabe exatamente o que está fazendo, entende?

E foi aí que eu vi: Em um ano e (quase) dois meses eu criei uma pessoa que abraça.

No caminho que nós traçamos esse ano, entre um percalço e outro teve muita shantala, muita amamentação, muitas cócegas, banhos, mãos dadas, muito sling, muitas músicas inventadas, muito carinho na barriga para passar a dor, muito sono compartilhado, muito abraço no meio da noite, muito beijo de bom dia.

zerandoEsse ano eu fiz comida saudável, brinquei de esconder, inventei e reinventei mil e uma maneiras de deixar a hora da troca da fralda mais divertida (ela odeia, cada vez é um desafio), falei “eu te amo”, dei colo e aprendi a conversar com quem não fazia ideia do que eu estava dizendo, só para ela entender que pode confiar nas minhas palavras.

No fim das contas, obviamente não sozinha (com muita, muita ajuda da minha mãe <3), eu consegui criar a Rita que ela é hoje. Um bebê que dentro de um ano ficou realmente doente uma única vez. Que abraça, manda beijo e conversa o tempo todo. Faz carinho em cachorros e gatos, anda confiantemente para tudo quanto é lado, segura a nossa mão, sorri para câmeras, come bem, bebe água, se apega com facilidade, não tem medo de pisar na terra, brinca de “achou” e sem sombra de dúvidas (essa é a parte que mais me orgulho) ri infinitamente mais do que chora.

Eu avisei que esse seria um post egocêntrico. Porque no meio de tanta pressão para ser a mãe ideal, alivia o nosso coração olhar para trás e perceber que se nossos filhos são quem são é porque tem muito de nós ali.

And sometimes we should be proud.

Há um ano eu te esperava

Ainda é de madrugada, mas já é dia 28. Popularmente a gente já considera seu aniversário, seu primeiro ano de vida. Mas oficialmente, há 365 dias atrás você ainda não tinha nascido.

Ironicamente eu estou agora sentada no mesmo lugar que estava há um ano atrás. E nem é propositalmente (embora você saiba que eu sou chegada nessas de deixar as coisas mais simbólicas e dramáticas). Também ironicamente há um ano eu escrevia. Ou seja: Tudo está praticamente igual. Exceto pelo fato de estar completamente diferente.

Há um ano eu te sentia dentro de mim, se escondendo em minhas costelas, chutando o lado esquerdo, se esticando inteira. Eu equilibrava copos e garrafas na barriga para espantar o tédio e esperava pelo dia seguinte, quando você chegaria. Hoje e há um ano a ansiedade tomava conta de mim e eu fiquei procurando me distrair de madrugada.

Há um ano eu não consegui dormir. Eu sentia o estômago embrulhado, o suor frio, a inquietude, o sangue correndo rápido pelo meu corpo, o coração disparado e o pensamento de: E agora? O que vai ser agora?

Há um ano eu te esperava chegar e mudar a minha vida. Eu sabia que você iria mudar a minha vida. Eu deveria ter ficado calma, tranquila e aproveitado para dormir bem a noite, apenas aguardando você chegar aqui fora e mudar a minha vida.

Mas é que eu não sabia como seria o seu sorriso, qual seria o seu olhar, sua voz. Eu não conhecia o seu jeito de me agarrar com as mãozinhas, de fungar ou de encostar a cabeça no meu ombro quando fica tímida. Eu não sabia como você ia mudar a minha vida até que você chegou com todas essas coisas. Com toda essa Rita.

Eu não sabia que você ia ter mania de mamar arranhando meu peito, nem que um dia iria se esconder atrás das minhas pernas brincando com as visitas. Eu não tinha noção de que você gostaria tanto de água, de brincar de se esconder e das cócegas embaixo do braço. Não sabia que você dormiria quando eu fizesse carinho da testa para o nariz e nem que ia rir tanto quando eu imitasse o barulho de um pato.

Há um ano eu sabia que você chegaria. Mas não sabia quem era você. Há um ano eu te sentia dentro da minha barriga e nem podia imaginar o que fazer quando você viesse de lá para as minhas mãos. Deve ser por isso que a ansiedade batia forte.

Deve ser por isso que hoje a ansiedade bate forte. Porque hoje, um ano depois, eu estou aqui, esperando você mudar a minha vida. Eu sei que você vai mudar a minha vida.

Eu sei que um dia você vai me dar um olhar que nunca deu, vai me chamar de mamãe, vai dançar sozinha, vai contar uma piada, vai fazer uma pose que nunca fez, alcançar um lugar que nunca alcançou, rir de algo que nunca riu, descobrir alguma coisa nova. E vai mudar a minha vida.

Eu sei que cada dia mais você vai ficando mais parecida consigo mesma. E eu vou me sentindo transformada em cada gesto de Rita que você traz para mim. Obrigada por se descobrir e descobrir o mundo. Obrigada por morar na minha casa e me deixar ver de perto cada uma das suas caras, manias, vontades, curiosidades, verdades. Obrigada por me deixar ser tão eu, apenas sendo você.

Obrigada pelas 365 vezes que você mudou a minha vida neste ano. Mal posso esperar pelas próximas.

Por um amor mais café com pão

Ah, o amor romântico! Esse mito ocidental que padroniza nossas relações. Todas elas. É complicado falar desse assunto porque mexe com o âmago das pessoas. É difícil admitir que fomos condicionados a amar de determinada forma e que isso é questionável. É difícil repensar algo tão profundo quanto nossos próprios sentimentos. Mas bem, vou ter que fazer isso.

Desde o namorinho da infância até o amor materno é condicionado. O que não falta é pressão sobre o “amor de verdade”. As pessoas criam expectativas (e já falei sobre isso aqui) e testes para saber quanto vale o seu amor. Querem um amor extremo, um amor que viva sempre no limite, um amor de provas. Muito mais provas do que amor, convenhamos.

Entre as mães então, é padronizado que amamos nossos filhos desse jeito máximo. É óbvio que amamos nossos filhos mais do que tudo no mundo. Que se tivéssemos que escolher entre qualquer outra coisa (uma carreira, um romance, uma aventura) e nossos filhos optaríamos por eles. O nosso amor é medido o tempo todo. E tem que passar por esse crivo, esses testes imaginários (convenhamos, quantas vezes na vida temos que de fato fazer escolhas fatais assim?) para que seja válido. Só assim comprovamos que na maternidade encontramos o “verdadeiro significado do amor”.

De qual amor? Ora, que padronização mais chata. Como medir algo tão fluido quanto o amor? Como determiná-lo dessa maneira estagnada? Se o amor nada mais é do que uma relação entre pessoas distintas?

Para mim funciona diferente. Eu não quero esse amor materno divino, intocável e inquestionável. Eu não me identifico com essa idealização. Eu não quero amar dos extremos, não quero amar na hora da escolha. Eu não quero que seja maior que tudo, maior que eu, maior que qualquer amor de qualquer pessoa. Eu só quero que seja nosso.

O meu amor é café com pão. Esse amor que eu vejo toda vez que abro os olhos no meio da noite para te ver dormindo. O amor que acorda com você pulando na cama gritando “tatata” e responde “mas já, filha? Me deixa dormir mais um pouquinho”. Meu amor está nas músicas que eu invento para te fazer sorrir, está no meu ouvido treinado que reconhece o seu choro a distância. Meu amor é plausível, é palpável.

Esse amor de quem bate palmas juntinho a cada colherada de comida, um amor que sai encharcado da hora do banho. Amor que se abraça durante a noite, que anda de mãos dadas, que trava uma briga na hora de cortar as unhas.

O meu amor não está nos limites, não está no imaginário, no “o que eu faria se…”. O meu amor está no agora. É um amor de dia e noite, de cotidiano, de construção (e essa sou eu citando músicas do Chico Buarque compulsivamente). É um amor de pequenos sorrisos, de cócegas e carinhos.

Eu quero um amor menos padrão e mais concreto. E para isso a gente precisa colocar todo dia um tijolinho.