Eu já escuto os teus sinais

Tu vens. E eu só não digo que sinto a maior angústia de minha vida porque há um mês tenho me deitado sem você todas as noites. Isso sim é angustiante. O que eu sinto agora está mais para uma das maiores crises de ansiedade que já tive.

Tem gente que não come. Mamãe não dorme. Você vai perceber ao longo da vida que mamãe não consegue dormir quando está muito ansiosa. E passa mal. Mas aí é só em casos muito extremos mesmo. Não passei mal quando fui me mudar de cidade, por exemplo. Mas sabendo que daqui a algumas horas vou te ver, estou passando mal.

Tu vens. E eu quero terminar de arrumar a casa para você. Mas isso significa pensar em você pisando aqui dentro e aí eu passo mal. Porque não consigo sequer imaginar. Porque não vejo a hora. Porque estou com medo de como vai ser te ver.

Eu tenho um medo muito grande de você não se lembrar de mim. Ontem a vovó me contou que você ficou dizendo “quero ir mamãe”. Hahahaha. Eu tenho um medo maior ainda de você se lembrar de mim. E de ter sofrido esse tempo longe de mim.

Eu sei, porque lembro de você. E sofro longe de você.

Tu vens. Hoje o dia vai ser diferente. Hoje vai ser exatamente o dia que eu quero viver todos os dias para o resto da minha vida. Eu, você, essa cidade.

Tu vem chegando pra brincar no meu quintal <3

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Rita e o Rio

Então nós fomos conhecer o Rio de Janeiro. Eu com 22 anos e ela com nem um. Claro que para garantir a memória eu tirei mil fotos e gravei vídeos (o difícil é que agora não sei onde armazenar, qual vai ser a tecnologia da época quando ela for adolescente?), mas bem, a memória emocional acho que fica (fica?).

Inclusive, vale frisar que a menina é viajada. Tá aqui nesse mundão há 10 meses e já conheceu São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro. Temos também Porto Alegre nos planos. E não pensem que eu era de viajar tanto assim, sempre gostei, mas era mais de sonhar do que de executar. E aí foi a menina chegar que inexplicavelmente me bateu esse sopro de vida, essa vontade de ir para tudo quanto é canto. Mas acho que isso é assunto para outro post.

O fato é que Ritinha pisou na areia e viu o mar pela primeira vez e taí uma coisa que merece ser registrada. Rita chegou na praia e foi direto fazer o que mais gosta: Comer alguma coisa não comestível, cheia de bactérias e preferencialmente bem perigosa. No caso, areia.

O gostinho áspero na boca não deu certo não. A textura também não agradou os pézinhos e os braços viraram quase que instantaneamente pedindo meu colo. Eu dei. Ficou ali então sentada nas minhas pernas, olhando para os lados e tentando entender o que eram aqueles grãozinhos que tinham grudado nas mãos.

Não demorou muito eu resolvi arriscar. Vamos para o mar. Me disseram que geralmente dava medo, que as crianças demoravam, não iam de primeira, grudavam na gente e queriam só olhar de longe, bem de longe mesmo. Mas, bem, estávamos na praia eu tinha que levá-la para tirar suas próprias conclusões. E aí? Aí foi amor a primeira vista.

Aí foi neném sorrindo de uma orelha a outra. Já começou a se balançar no meu colo, doidinha para chegar mais perto daquilo. Era a onda quebrar e ela gritava. Coloquei no chão e fiquei ali segurando as mãozinhas. Pronto. Era gargalhada que não acabava mais. E queria ir, queria andar, correr para dentro do mar.

Quando a onda era mais alta eu a levantava. A reação foi a óbvia para quando se junta duas paixões, saltos e ondas resultaram em risos infinitos. Quanta endorfina deve ter sido liberada naqueles minutos que ficamos por ali.

Virei para ir embora e aí parece que a opinião sobre a tal areia havia mudado. Se jogou na areia molhada. Queria tocar, pegar, sentir e, obviamente, comer. Sentei com ela ali um pouco, para deixar se despedir do mar. E fomos (e voltamos no outro dia).

Não teve susto, não teve medo, não teve nada do que eu deveria esperar. Teve felicidade. Teve uma paixão louca. Algo que parecia ser um sentimento único que aos dez meses de idade deu vontade se jogar no mar, nas ondas, na vida, no Rio de Janeiro.